POV/ROCCO
Antes de procurar a sala, voltei ao quarto de Sky.
Fiquei ao lado da cama, tentando aceitar que não podia fazer mais do que estar perto e aguardar. Ela continuava sendo acompanhada, sem condições de conversar comigo. Eu tinha tantas coisas para dizer que, quando toquei sua mão, nenhuma pareceu possível.
A notícia dos gêmeos ainda era recente demais.
Olhei para seu rosto e pensei nos dois bebês sem conseguir imaginar como contaríamos às pessoas, como seria ouvi-la falar deles, como conseguiria diminuir o medo depois do que tinha acontecido.
Moon estava na emergência.
Christian tinha descoberto que seria pai.
Inclinei-me e beijei os dedos de Sky.
— Vou ficar aqui perto. Se precisar de mim, eles vão me chamar.
Conversei com a enfermagem antes de sair. Confirmei a forma de contato, avisei onde estaríamos e pedi que me localizassem imediatamente diante de qualquer mudança. Fiz questão de deixar o mesmo encaminhamento para as notícias de Moon.
A sala reservada era pequena, mas ficava próxima e permitia fechar a porta.
Christian colocou a pasta sobre a mesa.
Esperei que se sentasse.
Ele continuou de pé.
— Otávio está vivo.
Não consegui responder.
Olhei para seu rosto, procurando algum detalhe que modificasse o sentido da frase.
Nathan se endireitou na cadeira.
Sakura deixou o telefone sobre a mesa.
— Vivo como? — perguntei.
Christian sustentou meu olhar.
— Sobreviveu ao incêndio. Está recebendo cuidados em um lugar protegido.
Meu peito se contraiu.
Sky tinha acreditado que perdera o pai naquele incêndio. Eu tinha visto o que aquilo fez com ela. O esforço para continuar falando, trabalhando, respondendo às pessoas enquanto tentava suportar mais aquela perda.
— Você está me dizendo que ela está sofrendo por uma morte que não aconteceu?
A voz saiu mais dura do que eu pretendia.
Christian não recuou.
— Estou.
Afastei a cadeira.
— Porra, Christian!
Ele fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
— Você viu a Sky. Viu a Moon. E não…
Parei antes que minha raiva decidisse o restante.
Meu primo tinha acabado de tirar a mulher que amava de um carro submerso. Não deixaria de questioná-lo, mas precisava conseguir escutar.
— Me explica.
Christian se sentou.
Falou da vulnerabilidade de Otávio, dos cuidados que precisaram ser organizados e do risco de revelar sua localização. Contou que queria entender as ameaças antes de levar Sky e Moon até ele.
— Elas passaram anos cuidando do pai — falei. — Não eram pessoas distantes que precisavam ser preparadas para conhecer um estranho.
— Eu sei disso, Rocco.
— Então entende por que elas vão se sentir…
— Eu entendo.
A voz dele falhou na última palavra.
Fiquei quieto.
Christian apoiou os antebraços na mesa.
— Não estou pedindo para você concordar com tudo. Estou dizendo que havia um homem tentando se recuperar e com medo do que fariam às filhas se descobrissem que continuava vivo.
Sakura respirou fundo.
— Que medo?
Foi quando ele contou sobre Paulo Gouveia.
As visitas. As acusações de roubo. As perguntas sobre documentos. As ameaças a Sky e Moon enquanto Otávio não conseguia reagir.
Olhei para a pasta sem realmente enxergá-la.
Era difícil imaginar o tempo passando daquela forma. As filhas entrando no quarto, os cuidados cotidianos, as tentativas de comunicação. E, em outros momentos, alguém usando a incapacidade dele para ameaçá-las diante de seus olhos.
— Ele ouvia? — perguntei.
— Em parte desse período, sim. Não conseguia responder ou se defender como precisava.
Sakura cobriu a boca com a mão.
Christian explicou a recuperação parcial da fala e dos movimentos. Depois contou sobre a tentativa de obter o dispositivo escondido e a interrupção do fornecimento de oxigênio.
Nathan se inclinou.
— Quem fez isso?
— Não tenho uma identificação que possa afirmar aqui.
Assenti, registrando o limite daquela informação.
Christian abriu a pasta e mostrou a embalagem.
— A equipe médica retirou isso durante minha visita.
Não toquei.
— São os documentos?
— Não. É a chave criptográfica para acessar registros financeiros armazenados remotamente.

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