POV/ CHRISTIAN
A resposta correspondia ao que os documentos mostravam. Ele podia não saber desde o início, mas em algum momento deixou de ser alguém enganado e escolheu continuar.
Meu pai confirmou que apresentou a tecnologia a Heitor, que o negócio interessou à família e que seu irmão começou a investigar a origem do material.
Depois falou do dinheiro.
As perdas na Inglaterra, as tentativas de recuperar o que tinha comprometido e os pagamentos apresentados como serviços a empresas relacionadas a Gouveia e Lacerda faziam parte da mesma sequência que a auditoria começara a reconstruir.
— Eu precisava manter os negócios funcionando — disse.
— Com dinheiro que não podia usar daquela forma.
Ele assentiu.
— Eu dizia a mim mesmo que conseguiria devolver.
Olhei para seu rosto.
— E continuou tirando.
Meu pai não negou.
A confirmação me fez pensar nas vezes em que encontrei recursos disponíveis e acreditei que tinham vindo da atividade que os documentos descreviam. Eu tinha trabalhado, organizado compromissos e confiado em informações que ele sabia serem falsas.
— Otávio encontrou as movimentações — falei.
— Encontrou parte delas.
— E seu irmão tinha as provas sobre a tecnologia.
Lorenzo assentiu novamente.
— Os dois iam se encontrar.
Aproximei as mãos uma da outra sobre a mesa.
— Foi por isso que mandou sabotar o carro.
Meu pai olhou diretamente para mim.
— Foi.
Meu peito se contraiu.
Eu tinha ouvido Helena. Tinha visto os documentos. Ainda assim, nada me preparou inteiramente para receber aquela resposta da boca dele.
Lorenzo explicou o suficiente para deixar claro que a explosão no encontro não tinha sido um acidente imprevisto. Ele autorizara uma ação que deveria atingir o veículo quando chegasse ao local combinado.
Não pedi detalhes do mecanismo.
— Tentei conversar com meu irmão — acrescentou. — Pedi que não levasse aquilo adiante.
A raiva me fez apoiar as mãos na mesa.
— Ele não era obrigado a ajudar você a esconder.
— Eu sei.
— Então não fala como se ele tivesse deixado você sem opção.
Meu pai abaixou a cabeça.
Quando voltou a olhar para mim, estava chorando.
— Eu não sabia que Roberto estaria no carro.
A frase não diminuiu nada.
— Mas sabia que seu irmão estaria.
Lorenzo cobriu a boca.
Eu o observava e ainda conseguia lembrar do homem que se sentava ao meu lado para explicar alguma coisa difícil. Agora precisava escutá-lo admitir que tinha tirado essa possibilidade de Rocco.
A lembrança de Moon veio com tanta força que precisei afastar o copo.
— E o táxi?
Meu pai deixou a mão cair.
Esperei.
— Eu encontrei outra cópia do arquivo do meu irmão — disse. — Não consegui abrir. Procurei quem pudesse obter a senha, mas não consegui o acesso.
Mantive os olhos em seu rosto.
— Quando Moon disse que tinha lembrado e iria encontrar você, achei que não teria mais tempo.
Senti o calor desaparecer de minhas mãos.
— Foi você?
Lorenzo demorou, mas respondeu.
— Mandei impedir que ela chegasse.
Levantei-me.
A cadeira se arrastou, e algumas pessoas olharam. Eu sabia que estávamos num restaurante, mas precisei de alguns segundos para conseguir pensar em qualquer coisa além do rosto dela debaixo da água.
— Ela quase morreu.
Meu pai também se levantou.
— Christian…
— Eu quebrei o vidro para tirar ela. Ela não se mexia. Eu estava tentando fazer ela respirar.
Minha voz falhou.
Lorenzo deu um passo na minha direção.
Recuei.
— Eu não posso perdoar isso.
Ele parou.
— Eu sei.
Fiquei olhando para ele, com vontade de gritar e uma dor que não diminuía por conseguir dizer o que pensava.
— Moon está grávida.
Meu pai ficou imóvel.
Pela primeira vez desde que nos sentamos, não pareceu procurar uma resposta.
Seu olhar desceu brevemente antes de voltar ao meu rosto.
— Vocês…

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