POV/CHRISTIAN
Charlotte apareceu para perguntar se precisávamos de alguma coisa e encontrou Rocco discutindo com Arthur sobre quem tinha feito o pior comentário da noite.
A discussão durou menos de um minuto e terminou quando ela colocou mais comida sobre a mesa.
— Vocês estão bebendo e esquecendo disso aqui.
Arthur abriu a boca.
Charlotte apontou para ele sem olhar.
— Você também.
A expressão dele me fez rir.
Era uma coisa pequena. Eu tinha passado o dia esperando que qualquer movimento me devolvesse à rua, ao hospital ou ao cemitério. Conseguir prestar atenção naquela troca por alguns segundos me deu uma pausa.
Nathan conferiu o telefone.
— Elas estão bem — avisou. — Sakura disse que Moon comeu e que Sky está escolhendo alguma coisa para assistir.
Peguei meu aparelho para olhar as mensagens.
Moon tinha mandado uma fotografia simples do sofá, com parte da manta cobrindo suas pernas e a mão de Sky aparecendo ao lado. Não havia rosto, pose ou tentativa de fazer parecer que tudo estava perfeito.
Escreveu apenas que me esperava.
Fiquei olhando até a tela escurecer.
Rocco acompanhou meu movimento.
— Quer voltar?
Pensei antes de responder.
— Daqui a pouco.
Ele assentiu.
Arthur precisou se levantar para resolver alguma coisa com Charlotte. Diego e Nathan foram até o balcão, e meu primo permaneceu ao meu lado.
Eu voltei ao assunto que ainda me incomodava.
— Quero me afastar daqueles negócios.
Rocco me olhou.
— Dos da Inglaterra?
— Deles. Dos postos. Do que eu puder vender depois que tudo estiver regularizado.
Passei os dedos pelo copo sem beber.
— Não quero voltar para a mesma rotina e encontrar meu pai em cada decisão. Também não quero administrar aquilo só porque seria o caminho mais fácil.
Meu primo ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu também não quero continuar do mesmo jeito.
Virei o corpo para ele.
Rocco apoiou os braços na mesa.
— Estou pensando em vender a Blackwood & Co. e o Ambrosia.
A informação me fez permanecer quieto.
Eu conhecia o trabalho que tinha dedicado à empresa. Também conhecia a relação entre aquela estrutura e a expectativa de continuar o que o pai deixou.
— Você tem certeza?
Ele demorou a responder.
— Tenho certeza de que quero encaminhar essa possibilidade. A venda não vai acontecer amanhã. Tem obrigações, gente trabalhando, contratos e coisas que precisam ser resolvidas direito. Mas não quero continuar só porque sempre disseram que eu precisava.
Assenti devagar.
— E o que pretende fazer depois?
Rocco olhou para mim.
— Ainda não sei tudo.
A resposta me fez sorrir um pouco.
Era raro ouvi-lo admitir isso sem se irritar.
— O quê? — perguntou.
— Nada. Só gostei de você não ter uma planilha pronta para os próximos vinte anos.
Meu primo soltou uma risada baixa.
— Posso fazer uma, se estiver sentindo falta.
Balancei a cabeça.
Ficamos quietos por alguns segundos. A ideia da venda não parecia uma renúncia à capacidade de trabalhar. Eu continuava gostando de resolver problemas, e Rocco não deixaria de ter projetos porque escolheu outra vida.
O que não queríamos era transformar o patrimônio numa obrigação de repetir todas as escolhas anteriores.
— Eu queria uma casa — falei.
Meu primo me olhou.
— Você já tem onde morar.
— Eu sei. Estou falando de uma casa que a gente escolha para viver. Sem ser a alternativa entre um hospital e uma reunião.

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