POV/ MOON
A investigação sobre a administração deliberada de substâncias prejudiciais e sobre a tentativa de interromper o oxigênio continuava em procedimento próprio. O que estava sendo apresentado ali ajudava a esclarecer por que não podíamos aceitar os gastos médicos como uma conta simples, honesta e indiscutível.
Eu olhei para Christian.
Ele sustentou meu olhar, mas não sorriu.
Minha garganta começou a doer.
Pensei nas vezes em que segurei a mão de meu pai, dizendo que estava tudo bem, sem saber se ele conseguia me ouvir. Nas manhãs em que Sky verificava os aparelhos antes de sair. Nas ocasiões em que agradecemos a Paulo.
Agradecemos.
Precisei beber água para conseguir continuar sentada.
Paulo negou ter ordenado qualquer dano. Disse que não era médico, que não podia responder por tudo o que uma clínica fazia.
O nome de Lacerda apareceu numa explicação seguinte, e ele imediatamente se afastou da mesa.
— Não me coloque no meio das suas decisões.
O juiz interrompeu a troca antes que virasse uma discussão.
Mesmo assim, vi Paulo olhar para ele de um jeito que nunca tinha visto.
Aquela união que nos pareceu tão poderosa durante anos começava a falhar quando cada um precisava responder pela própria parte.
Sky inclinou o rosto na minha direção.
— Você está bem?
Eu poderia ter mentido. Era o que costumávamos fazer para não preocupar uma à outra.
— Não — sussurrei. — Mas continua.
Ela apertou minha mão.
E continuamos.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
POV/SKY
Quando o nome Zenitê foi mencionado, endireitei as costas sem perceber.
Meu pai falava daquela tecnologia com uma atenção que eu nunca esqueci. Mesmo quando não compreendia as explicações, eu gostava de vê-lo trabalhar. Havia alguma coisa muito bonita no modo como ele acreditava que uma ideia podia melhorar o que existia.
Durante anos, ouvi pessoas repetirem que ele tentou tomar o trabalho de outro homem.
Agora, os documentos estavam ali.
As versões antigas dos arquivos, os registros de desenvolvimento, as comunicações e os materiais preservados tinham sido examinados. A documentação recuperada com a senha que Moon lembrou não era uma apresentação preparada pelos nossos namorados para nos favorecer. Tinha história, sequência e elementos que podiam ser confrontados.
Os registros financeiros antigos, acessados separadamente com a chave preservada por nosso pai, também ajudavam a explicar os negócios que acompanharam aquela apropriação.
Eu não compreendia cada detalhe técnico, mas compreendi o essencial.
Lacerda teve acesso ao que não criou.
A negociação prosseguiu sem a autorização de quem desenvolveu a tecnologia.
E as mensagens mostravam que a falta de autorização deixou de ser um detalhe desconhecido antes de o negócio ser concluído.
Christian prestou suas declarações sobre o material que recebeu e o que ouviu de Lorenzo. Falou com cuidado, sem fingir que estar presente numa conversa substituía todos os documentos.
Quando mencionou o pai, sua voz perdeu um pouco da firmeza.
Eu desviei os olhos por um instante.
Ainda era estranho pensar que ele estava ali ajudando a esclarecer o que Lorenzo fez poucos dias depois de enterrá-lo.
O depoimento de Heitor, colhido anteriormente com os cuidados exigidos por sua condição, também integrava o material. Não foi apresentado como um homem que sabia de tudo. O que contou ajudava a esclarecer a negociação e o que lhe foi oferecido na época.
As responsabilidades não eram idênticas.
Eu ouvi nosso advogado insistir nisso: a discussão sobre autoria não autorizava atribuir a qualquer pessoa todos os crimes que atravessaram nossa família.
Lacerda falou depois.
Tentou separar a tecnologia dos negócios posteriores, os documentos das interpretações e sua atuação das decisões de Lorenzo. Em determinado momento, disse que existiam interesses comerciais legítimos naquela negociação.
Nosso advogado apresentou uma comunicação que já estava juntada ao processo e perguntou qual autorização de Otávio sustentava a transferência.
Lacerda olhou para o papel.
O advogado dele pediu para fazer uma observação.
Foi a primeira vez que senti meus ombros relaxarem um pouco.
Não porque tudo estivesse acabado. Porque eu já não precisava convencer alguém apenas com a minha palavra.
Meu pai deixou o próprio trabalho falar por ele.
Houve uma pausa para os advogados discutirem as propostas de composição patrimonial que vinham sendo negociadas. As obrigações de cada grupo estavam separadas. A cobrança contra mim, os direitos decorrentes do patrimônio e a reparação pela exploração indevida não seriam tratados como um único pagamento genérico.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário