POV: SKY BITTENCOURT
O Rocco nem piscou. Deu aquele sorriso impecável e respondeu na maior cara de pau do mundo:
— Ah, sim. Mas é que eu perdi a minha outra carteira. Não essa aqui. Sou um homem bem precavido.
O Gael abriu a boca em um perfeito O, genuinamente impressionado.
— Nossa... que interessante. Homem precavido é outra coisa, né? O senhor sempre anda com duas carteiras?
— Sempre, Gael. Nunca se sabe quando vamos precisar de uma reserva — o Rocco filosofou, sério como se estivesse dando uma palestra de negócios.
— Nossa, genial. Vou anotar essa dica para a minha vida — o Gael comentou, admirado, pegando o cartão e se levantando imediatamente para cumprir o pedido do CEO.
Eu fiquei olhando para o Gael se afastar, sentindo uma vontade quase incontrolável de gritar de frustração. Duas carteiras?! Aquilo era a maior balela que eu já tinha ouvido em toda a minha existência! Nem se a gente pegasse aqueles gêmeos siameses que têm o corpo grudado um no outro eles teriam duas carteiras no bolso! O Rocco tinha mentido descaradamente na nossa cara e o ingênuo do Gael tinha caído feito um patinho.
Assim que o Gael sumiu de vista no corredor iluminado, o Rocco soltou o copo de coco na borda da piscina e simplesmente deitou-se de costas no meio do nosso pano de piquenique, cruzando os braços atrás da cabeça com a maior folga do universo.
— Nossa... mas o clima aqui fora está tão bom, você não acha, Bittencourt? — ele comentou, fechando aqueles olhos esmeralda com uma tranquilidade que me deu falta de ar.
Eu olhei para ele deitado ali, no lugar que deveria ser o meu encontro romântico, e senti o meu corpo inteiro tremer. Eu estava com tanta, mas tanta raiva, com um ódio tão monumental e uma vontade tão absurda de cometer um assassinato ali mesmo, que a minha mandíbula travou. Eu nem conseguia falar. Minha boca abria e fechava, mas as palavras sumiam diante do tamanho da audácia daquele homem.
— Olha, Bittencourt, eu percebo que você está meio nervosa por algum motivo... — ele começou a falar, com aquele tom cínico que me dava nos nervos.
Dei um tapa estalado no braço dele.
— Que diacho você pensa que está fazendo aqui?! O que você quer, afinal? — esbravejei, a voz trêmula de fúria.
— Eu já expliquei que perdi a minha carteira aqui.
— Perdeu a sua carteira? Ah, conta outra, Blackwood! — berrei, completamente fora de mim. Fechei a mão em um punho e dei um murro bem no peito dele. — Vai embora agora! Sai daqui!
— E se eu não quiser ir? — ele provocou, arqueando uma sobrancelha e cravando os olhos em mim.
— É para ir embora agora! Não to perguntando se você quer. — mandei, sentindo o meu rosto queimar de raiva.
O Rocco se sentou e virou o tronco de frente para miim, e os olhos dele desceram pelo meu vestido curto de coqueiro, me deixando ainda mais tensa.
— E onde você estava que não foi para o quarto? — ele perguntou, mudando o tom de voz, parecendo realmente querer uma resposta.
— Não te interessa! — rebati na mesma hora.
— Interessa sim. Eu fiquei... preocupado, porque você não apareceu. Você estava no quarto do Gael antes de vir para cá?
— Não é da sua conta, Blackwood!
— Ah, não é? — ele deu uma risada sem humor. — Mas deveria ser. Afinal, é o dever de um chefe responsável e legal se preocupar com a segurança e o paradeiro dos seus funcionários.
— Pelo amor de Deus, conta outra! — gritei, completamente descontrolada com aquela hipocrisia.
Avancei de novo para cima dele, desferindo uma sequência de murros contra o ombro dele.
— Sai, sai-pra-lá... xô... xô... sai-pra-lá!
Ele esticou os braços e segurou as minhas duas mãos com firmeza, cruzando os meus braços bem na frente do meu próprio peito.
— Eu não sou um sapo, Bittencourt.
— Não, lógico que não. Você é uma barata, daquelas bem insistentes — disse séria para ele, enquanto tentava puxar meus braços de qualquer jeito.

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