Samuel aceitou ser ouvido pela equipe técnica dois dias depois.
Quando avisou Ema, por mensagem, foi direto:
“Vou porque é pelos pequenos. Mas não espera que eu goste disso.”
Ela respondeu com um simples:
“Eu sei. Obrigada.”
No fundo, entendia perfeitamente.
Samuel ainda atravessava o luto recente da mãe, e todo aquele processo vinha se somando a um cansaço emocional que ela conhecia bem demais.
Mesmo assim, ele estava lá.
E isso importava.
...
Na véspera da entrevista, Ema foi até a casa da família Machado para entregar alguns documentos que poderiam ajudar a contextualizar períodos antigos da sua convivência com eles.
Samuel a recebeu na varanda.
O rosto dele continuava mais magro do que antes, e os olhos ainda guardavam aquele cansaço opaco de quem não teve tempo suficiente para respirar entre uma dor e outra.
Ela lhe estendeu a pasta:
— Aqui. Tem algumas datas e registros que talvez te ajudem a organizar a linha do tempo.
Samuel pegou o material e assentiu.
— Obrigado.
O silêncio entre os dois durou alguns segundos.
Depois, ele falou:
— Você está mais magra.
Ema quase sorriu.
— Você também.
Samuel apoiou a pasta no parapeito e soltou o ar pelo nariz.
— Ótimo. Estamos nos destruindo com boa aparência.
A ironia seca dele a fez sorrir de verdade, ainda que de leve.
Era estranho. Em meio a tanto peso, ainda havia espaço para esse tipo de troca pequena, quase automática, construída em anos de convivência.
Samuel ficou sério de novo logo em seguida.
— Ele foi longe demais.

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