Alguns dias depois, logo cedo, Ema estava na Casa de Luz, na sala do RH, para uma entrevista.
O entrevistador sentado ao centro folheava suas fotografias com um olhar de admiração. Ao mesmo tempo, cochichava com a pessoa ao lado e, em seguida, perguntou a Ema:
— Seus trabalhos têm muita sensibilidade. A composição, a luz e as sombras são muito profissionais. No entanto, são todas fotos de objetos estáticos. Tem algum trabalho com pessoas? Eu gostaria de ver retratos.
Ema ficou em silêncio por um instante e respondeu:
— Não tenho. Minha especialidade são objetos estáticos.
Não que ela não tivesse trabalhos com pessoas; pelo contrário, retratos eram seu ponto forte.
Mas, devido à sua condição física atual, ela não queria se candidatar a essa função.
— Bem, não preciso ver mais o currículo. Pelos trabalhos, é muito bom...
O homem parou no meio da frase quando seu celular tocou. Ele atendeu, respondeu apenas alguns "sim" e desligou.
Após desligar, olhou para a pessoa ao lado, e eles cochicharam novamente.
Ema observava tudo sem dizer nada. Depois de um longo tempo, o homem disse com um certo embaraço:
— Sinto muito, Sra. Pacheco. Talvez eu tenha me expressado mal antes. Seus trabalhos podem não atender aos nossos requisitos. Nosso estúdio foca mais em fotografia de pessoas; esse tipo de fotografia puramente estática não está mais em alta.
Ema ficou atordoada por alguns segundos antes de assentir lentamente.
— Desculpe por tomar o tempo de vocês.
Depois que Ema saiu da sala do RH, ela repassou a cena em sua mente. Sentia que a rejeição tinha muito a ver com aquele telefonema.
Antes disso, a entrevista corria muito bem. Nenhum entrevistador questionou seus trabalhos; pelo contrário, todos a elogiavam.
Mas, depois da ligação, a situação mudou completamente.
Ema caminhava pelo corredor cheia de dúvidas.
De repente, ouviu um barulho à frente e olhou naquela direção.
Viu uma garota folheando arquivos de cabeça baixa, andando rápido pelo corredor e falando com raiva:
— Quem ela pensa que é para bancar a importante na minha frente? Quem quiser fazer esse trabalho que faça, eu não sirvo mais para isso.
A garota ao lado tentava acalmá-la:
— Zuleika, não se irrite. Aquela pessoa tem o Grupo Salazar por trás. Aguente só mais um pouco, falta apenas um set para terminar, não é?
Grupo Salazar? Ema repetiu o nome mentalmente. Em Campo Belo do Sul, além do grupo de Alípio, não havia outro chamado Grupo Salazar.
Ema parou involuntariamente. A garota no meio continuava de cabeça baixa, deu um riso frio e disse:
— E daí que é o Grupo Salazar? O Grupo Salazar é superior? Eu não engulo essa! E terminar o trabalho? Alguns sets de fotos estão se arrastando há uma semana! Isso vai acabar com meu ritmo de trabalho no setor. Além disso, você viu a atitude dela? Mais diva que estrela de primeira grandeza. Essa pose cansa, aquela pose não mostra os peitos cheios de silicone dela...
À medida que se aproximavam, Ema reconheceu o rosto da pessoa chamada Zuleika.
Era sua veterana da faculdade, a quem sempre admirou e idolatrou: Zuleika Andrade, uma nova estrela em ascensão no mundo da fotografia.
Seus trabalhos sempre tiveram uma perspectiva única e um estilo inconfundível.
Após agradecer, Ema contou por alto o que havia acontecido.
Zuleika franziu a testa:
— A Casa de Luz não te contratar é uma perda para eles. Depois vou sondar no RH para ver qual foi o motivo.
— Obrigada, Zuleika. A propósito, por que você estava brava agora há pouco?
Ao ouvir isso, a raiva de Zuleika voltou com tudo:
— Nem me fale. Aquela modelo, Helena, é insuportável pra caramba. Foi gravar um comercial no estúdio, trouxe três assistentes e ainda achou pouco, ficou dando ordens nos nossos funcionários. Na hora de fotografar, fica de corpo mole, atrasando o processo e segurando todo mundo. Quando o estúdio reclamar, com certeza não vão culpar o cliente, vão jogar a culpa em mim. É só para me dar dor de cabeça.
Ao ouvir, Ema conseguiu visualizar perfeitamente a arrogância de Helena.
Parece que não era só na frente dela; no dia a dia, Helena devia ser mesmo prepotente.
Talvez ela só fingisse ser doce na frente de Alípio.
Pela conversa que ouviu no corredor, Ema deduziu que Helena estava usando a influência de Alípio, sentindo-se protegida.
— Ema, você não sabe. Ouvi dizer que essa Helena acabou de voltar do exterior e está fazendo sucesso na publicidade apoiada no Grupo Salazar. Não sei se aquele Alípio é cego. A beleza dela é mediana, e o corpo... não, inclusive aquela cara, sabe-se lá quantas plásticas já fez. Enfim, dei azar de pegar um trabalho tão estressante.
Ema ouvia as reclamações de Zuleika, franzindo a testa. Ela compreendia a insatisfação da veterana, mas sentia-se impotente.
Ema estava prestes a consolar Zuleika quando ouviu a pergunta repentina:
— Ema, você é esperta. Tem alguma boa ideia para lidar com ela?

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