“José Miguel”
Eu observei a Eva se afastar enquanto eu desejava de todo coração poder voltar no tempo e fazer tudo diferente. Foi esmagador o que eu senti, o medo avassalador, o pânico, a raiva, a vergonha, a culpa, todos esses sentimentos explodiram de uma vez dentro de mim, uma enxurrada de emoções que eu não consegui gerenciar e eu apenas congelei no momento e tudo o que eu consegui fazer foi o que eu fiz nos últimos cinco anos, me afastar das pessoas, manter todos fora, e eu me afastei da Eva naquele momento, como se eu estivesse entorpecido.
Agora eu estava aqui, me sentindo desesperado para voltar no tempo e não deixar essa mulher escapar, desesperado para trazê-la de novo pra mim, completamente arrependido por tê-la magoado. Eu nem me sentia eu mesmo, eu passei tanto tempo preso às memórias e às promessas que eu nem sabia mais quem eu era. Eu estava cansado de sentir tanta culpa, eu estava cansado de todos esses sentimentos que me paralisavam, na verdade eu estava exausto e o Matheus provavelmente tinha razão, eu era caso de internação.
Eu passei pela porta da Eva e ela estava trancada, ela ia me manter longe. Eu não podia culpá-la, eu tinha provocado isso, mas me doía tê-la magoado e eu precisava me desculpar, no mínimo.
Eu fui para a minha sala e tentei trabalhar, mas a minha cabeça era uma confusão total, entre lembranças do acidente e da minha última conversa com a Cora, estavam as lembranças da Eva saindo correndo do meu carro na noite passada e as lembranças da Eva sentada no meu colo bem aqui nessa cadeira. Era impossível que eu conseguisse trabalhar, eu já tinha arrastado mais da metade do dia e não tinha feito nada.
Eu pensei em ligar para o Matheus, mas, coitado do meu amigo, já tinha passado a noite ouvindo os meus lamentos e eu tinha estragado os planos dele com a Gabriele, era melhor eu dar um tempo pra ele. Mas eu estava quase subindo pelas paredes. Então eu me lembrei daquele homem do hospital, o Nelson! Ele disse que eu poderia ligar. E falar com ele naquele dia me fez tão bem, me ajudou a ter uma clareza de pensamento que eu não tinha já há tempos. Eu tirei o cartão dele da minha carteira e fiz a ligação.
- Alô? – Aquela voz calmante soou do outro lado da linha.
- Nelson, aqui é o José Miguel, nós nos conhecemos no hospital…
- José Miguel! Que prazer falar com você! Como está a sua sogra? – Ela falava com gentileza e como se a minha ligação fosse esperada e bem vinda.
- Ela está muito bem, deve ir pra casa amanhã. Eu acabei contratando uma enfermeira para ficar com ela no hospital. Você tinha razão, ela precisava de cuidados que eu não poderia dar.
- Que ótimo! E como você está se sentindo?
- Em relação a ela eu estou muito bem, não pensei que sentiria esse alívio, como se eu tivesse conseguido resolver um problema muito difícil, não sei nem explicar.
- Entendo! E como você preencheu o seu tempo nos últimos dias, depois de entender que pode delegar os cuidados?
- Eu passei um tempo com outras pessoas, mas ontem… - Eu respirei fundo, como eu ia explicar isso? – Sabe, tem uma mulher e… aconteceu uma coisa… eu a magoei.
- E isso está te incomodando?
- Muito! E eu não sei o que fazer! Desculpe, eu te liguei porque você me fez ver as coisas com tanta clareza naquele dia do hospital… olha, eu não costumo me abrir assim para pessoas que eu só vi uma vez… - Eu dei uma risada nervosa. – Mas você realmente me transmitiu confiança e eu pensei que talvez, se você puder, talvez você possa me dar mais um conselho. – Eu passei a mão na testa. – Eu sei que isso parece estranho…
- José Miguel, não tem nada de estranho! Eu te dei o meu número para que você me ligasse. Acho que nós temos alguma sintonia. – Ele falou gentilmente. – Olha, o que você acha de tomar um café? Nós podemos nos encontrar em algum lugar e você me conta sobre essa mulher e como você a magoou.
- Isso seria ótimo, Nelson! Tem certeza que eu não estou sendo impertinente?
- Claro que não, José Miguel! Eu gostei de te ouvir e fico feliz que você tenha gostado de falar comigo. Eu sou um profundo interessado nas emoções humanas, meu amigo, será um prazer se eu puder ajudá-lo.



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