“José Miguel”
Eu fiz os pedidos e voltei a minha atenção para o Nelson. Ele me observava impassível.
- Me desculpe, é que a minha assessora não almoçou hoje, eu estou preocupado. – Eu expliquei.
- Isso é muito nobre da sua parte. – Ele sorriu, aquele sorriso calmo e compreensivo.
- Nem tanto assim, considerando que é minha culpa ela estar trancada em sua sala e chateada demais para ter fome.
- Por que você diz isso?
- A mulher que te falei pelo telefone é ela. – Eu revelei e ele me olhou impassível.
- Voce se sente confortável para me contar o que aconteceu?
- Sim. – Eu sorri e a garçonete colocou os cafés diante de nós. – Eu tenho um amigo, o Matheus, e ele me convenceu a ir a um bar ontem. Ele já tinha armado tudo com um outro amigo, o Enzo, para que nós encontrássemos a Eva, minha assessora, e a Gabriele, melhor amiga da Eva. Acontece que a Eva e eu já ficamos juntos algumas vezes e nós saímos do bar juntos, íamos passar a noite juntos, mas ela falou uma coisa e eu… eu fui um idiota! Eu disse que ia levá-la pra casa. Ela se chateou, saiu do carro correndo e foi embora de taxi. – Eu o encarei e franzi as sobrancelhas. – Acho que você não entendeu nada, não é?!
- Mais ou menos! – Ele riu. – O que ela te disse e porque você decidiu levá-la pra casa?
- Eu fiz uma brincadeira com ela, algo sobre ela ter conseguido dirigir uns dias atrás porque eu estava bêbado. E ela riu e disse que quase causou um acidente e que se isso tivesse acontecido a culpa seria minha.
- E você ficou chateado por isso? – Ele estreitou os olhos para mim.
- Eu não fiquei chateado, mas eu senti… - Eu fechei os olhos e respirei fundo. – É que a minha esposa morreu em um acidente de carro e a culpa desse acidente foi minha, eu estava dirigindo e nós estávamos brigando.
- E a Eva sabe disso? – Ele perguntou cautoloso, mas direto.
- Não! Na verdade, eu não falo sobre isso com ninguém, só com o Matheus, que sabe de tudo. A Eva não sabe. E quando ela falou que se tivesse batido o carro a culpa seria minha eu congelei, eu não conseguia pensar com clareza e eu só pensava que eu não podia passar por aquilo de novo e pensava no acidente e…
- Calma, José Miguel! Respira devagar. – Ele falou pausandamente e olhou nos meus olhos, me fazendo desacelerar. – Acho que eu entendi o que aconteceu. A Eva acionou um gatilho de um evento traumático que você vivenciou. Mas ela não sabe disso. Talvez você devesse considerar contar para ela, explicar como você se sente e pedir desculpas.
- Esse seria o caminho, mas eu não quero contar isso pra ela.
- E porque não? – Claro que ele não entenderia, nem o Matheus entendia porque eu não queria que as pessoas soubessem daquela parte da minha vida.
- Porque eu não vou suportar que ela me veja como um assassino, que ela se decepcione comigo, ou pior, que ela me olhe com pena. – Meus olhos marejaram.
- José Miguel, mas não foi um acidente?
- Foi. Mais ou menos. Eu estava dirigindo, a minha mulher puxou o volante e eu perdi o controle do carro. Ela estava sem sinto e foi arremessada pelo parabrisa. Mas esse acidente poderia ter sido evitado, eu não devia ter ido ao bar comemorar o aniversário de um conhecido. Ela não quis ir e não queria que eu fosse, ela apareceu lá totalmente alterada e nós brigamos, entramos no carro brigando e…
- José Miguel, foi um acidente! – O Nelson falou com firmeza, mas eu olhei para ele sem acreditar.
- Tem muitos detalhes, Nelson! – Eu dei um sorriso sem graça.
- Olha, por mais detalhes que existam, não vai mudar o fato de que foi um acidente. Foi a sua esposa quem puxou o volante e foi só por isso que você perdeu a direção.
- Ela puxou o volante porque eu pedi o divórcio! – Eu confessei de cabeça baixa.
- Continua sendo um acidente e você não teve culpa. – Ele falou de forma prática. – Olha, José Miguel, eu entendo que você pode estar de luto ainda, mas você precisa se desprender disso. Infelizmente a sua esposa faleceu, mas você ainda está vivo.
- É como se eu estivesse morto. E talvez seja melhor para a Eva ficar longe de mim mesmo!
- Mas você não acha que ela tem o direito de decidir isso? Saber de toda a verdade e decidir se quer se afastar ou não?
- Eu não posso ficar com ela e se ela decidir não se afastar, eu não vou conseguir…
- E por que você não pode ficar com ela?
- Porque eu prometi a Cora. Antes de morrer a Cora me fez prometer que eu honraria o nosso casamento pra sempre, que eu seria fiel a memória dela, que eu jamais teria outra mulher e que eu cuidaria da mãe dela.
- E você fez a promessa no leito de morte de uma pessoa que estava provavelmente desesperada, com dor e sentindo a morte chegar. Você não acha que é uma promessa sem valor? Que escolha você tinha? E você não acha que o que ela pediu é uma loucura? – Ele perguntou, mas não estava chocado ou surpreso, nem nada, era como se ele perguntasse apenas para me fazer refletir. – Há quanto tempo foi esse acidente?
- Eu sei que você não é padre! Não me diga que você é Deus? – Eu brinquei e ele deu uma gargalhada.
- Fiquei lisongeado! Digamos que eu ajudo as pessoas a compreender seus sentimentos, comportamentos, pensamentos e as oriento e encorajo a lidar com os problemas. – Ele me olhou com os olhos divertidos, esperando que eu encontrasse a resposta.
- Ah, meu Deus, você é um psiquiatra! – Eu recostei na cadeira e olhei para ele em choque, aquilo explicava tanta coisa.
- Eu sou! – Ele sorriu.
- E por que você me ofereceu o cartão de um colega e não os seus serviços?
- Porque seria muito pretensioso da minha parte pensar que você gostaria de receber a minha ajuda profissional.
- Acho que eu vou te devolver o cartão do seu amigo. Como eu marco um horário com você?
- Tem certeza?
- Absoluta! Você nem pode imaginar o quanto me ajudou em duas conversas e eu sinto uma confiança enorme em você, eu consigo me abrir com você!
- Isso é muito bom, significa que nós vamos trabalhar bem juntos! Olha, eu atendo no Santé, mas posso te atender em outro lugar se preferir.
- No Santé está ótimo!
- Que tal na segunda às nove da manhã? – Ele ofereceu olhando a tela do celular.
- Perfeito pra mim! Não vejo a hora de te contar dos meus pesadelos, talvez você me ajude a me livrar deles.
- Pesadelos? – Ele sorriu. – Que caso interessante você é, José Miguel!
Nós passamos mais alguns minutos ali conversando sobre outras coisas mais amenas e quando eu saí daquele café eu me sentia muito melhor do que quando entrei. Eu voltei para o escritório, mas a Eva já tinha ido embora e na sala dela restava apenas o seu perfume. Eu nem voltei para a minha sala, saí do escritório e fui direto pra casa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...