O teatro pequeno, mas acolhedor, estava cheio de pais, irmãos e familiares ansiosos para assistir às apresentações das crianças. As cortinas vermelhas fechadas e o brilho quente das luzes do palco me trouxeram uma nostalgia avassaladora. Quantas vezes eu mesma estivera ali, orientando pequenas bailarinas e preparando-as para aquele momento?
Era um teatro simples, mas especial. Quando eu ainda era professora, sempre alugávamos esse espaço para que as crianças da turma inicial sentissem o que era pisar em um palco de verdade pela primeira vez. Lembro-me da excitação nos olhos delas, da mistura de nervosismo e felicidade ao se apresentarem. Agora, ali sentada, cercada por Nicolas, Sofia e Fabrício, sentia-me deslocada.
Era um encontro? Talvez. Mas eu nem sabia se podia chamar aquilo assim. A bem da verdade, eu e Nicolas sequer sabíamos o que éramos. Não éramos mais cliente e acompanhante, mas também não éramos exatamente amigos. Era uma conexão intensa e silenciosa, algo que nos puxava um para o outro sem que conseguíssemos nomear.
A apresentação de abertura começou, e eu assisti com um sorriso orgulhoso no rosto. Normalmente a abertura era feita pelas alunas mais velhas, Camila entrou no palco com graça, os movimentos fluindo como uma poesia silenciosa. Minha menina.
Ela era uma das alunas que mais me deram trabalho, mas também uma das mais talentosas. Eu sabia que seu dia de brilhar estava cada vez mais próximo. Quando a apresentação terminou, bati palmas com entusiasmo e até arrisquei um assobio. No palco, Camila me reconheceu e abriu um sorriso largo.
— Você a conhece? — Nicolas perguntou ao meu lado, a voz baixa, mas carregada de curiosidade.
— A maioria das garotas mais velhas já foram minhas alunas. — Sorri, sentindo uma pontada de saudade. — Mas com a Camila, o vínculo é mais forte. Estou ajudando ela a conseguir um solo importante.
— Solo? — Nicolas arqueou uma sobrancelha, parecendo confuso.
— Um papel de destaque. É algo importante para uma bailarina.
Ele me observou por alguns segundos antes de murmurar:
— É lindo ver seus olhos brilhando desse jeito. Você também deveria estar nos palcos.
Minha garganta apertou. Balancei a cabeça com um sorriso pequeno e dei de ombros.
— Não exagera.
— Não estou exagerando. — A firmeza na voz dele me fez desviar o olhar.
Antes que pudesse responder, as apresentações infantis começaram. Amélie e Mia surgiram no palco com suas roupinhas delicadas, as saias de tule balançando conforme giravam. Seus movimentos eram suaves, ensaiados com dedicação.
Nicolas parecia hipnotizado. A expressão séria e controlada que ele sempre carregava se desfez completamente, dando espaço a um pai orgulhoso. Ele aplaudia nos momentos certos, tirava fotos discretamente e, de vez em quando, segurava o fôlego quando Amélie fazia algum giro mais elaborado.
Ao meu lado, Sofia sorriu ao perceber isso e se inclinou em minha direção.
— Ele tem se empolgado com a fotografia de novo. Sei que isso tem seu dedo. Obrigada por isso.
— Estou tentando. — Murmurei, observando Nicolas mais uma vez com a câmera nas mãos.
— Sabe o que seria legal? — Sofia continuou, um brilho travesso nos olhos. — Você convidá-lo para acampar.
Soltei uma risada curta, franzindo o cenho.
— Eu? Acampar? Não sou exatamente uma garota do campo.
— Mas ele é esse cara. — Ela sorriu, empolgada com a ideia. — Ele ia adorar te ensinar tudo. E se você convidasse, duvido que negaria.
— Vou pensar. — Brinquei, mas, no fundo, algo naquela ideia se fixou em minha mente.
A apresentação chegou ao fim, e a plateia explodiu em aplausos. Nicolas aplaudiu com intensidade, e, ao lado da esposa, Fabrício sorriu com orgulho.
— Vamos buscar as meninas no camarim. — Sofia se levantou, pegando a bolsa. — Vocês podem esperar lá fora.
A piscadinha cúmplice que ela me lançou foi o suficiente para que eu percebesse sua intenção. Ela queria nos deixar sozinhos.
Ficamos sentados em silêncio por um tempo, o teatro esvaziando ao nosso redor. Nicolas passou a mão pelo cabelo, parecendo buscar algo para dizer. O clima estava carregado, e aquilo me incomodou.
— Quer ver algo legal? — Perguntei, quebrando o silêncio.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Sempre.
Levantei-me e fiz um gesto para que me seguisse. Guiando-o por uma escada lateral, chegamos a uma espécie de varanda que contornava todo o teatro. A vista dali era de tirar o fôlego. As luzes da cidade se espalhavam como um tapete brilhante até encontrar o oceano escuro, onde a lua se refletia na superfície ondulante.
Encostei-me na mureta, inspirando profundamente.
— Quando eu ficava nervosa antes de alguma apresentação, sempre vinha para cá. Respirava fundo e tentava me acalmar. A vista ajuda.
— É realmente incrível. — Nicolas murmurou, mas, quando olhei para ele, percebi que ele não estava olhando para a cidade.



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