~AYLA~
O teatro estava silencioso, a não ser pelo som dos passos de Camila ecoando no palco. Cada movimento dela parecia uma prece, um grito contido em forma de dança, a materialização de cada gota de suor e esforço dos últimos dias. Ela flutuava, leve como uma pena, mas com a firmeza de alguém que sabe exatamente o que quer. Havia algo de visceral na forma como seu corpo contava uma história, como se, naquele momento, nada mais existisse além da arte que pulsava dentro dela.
Eu estava sentada na terceira fileira, as mãos entrelaçadas no colo, sentindo meu coração bater forte contra as costelas. Estávamos ali, finalmente, no momento que definiria tudo.
Um movimento ao meu lado me fez desviar os olhos do palco. Nicolas deslizou para o assento ao meu lado, movendo-se com a discrição de alguém que não queria interromper.
— Desculpe o atraso. — Sua voz soou baixa, mas o suficiente para eu ouvir.
Soltei um riso nervoso, mantendo os olhos em Camila.
— Em plena quarta-feira à tarde, eu nem esperava te ver aqui.
— Você me convidou. — Ele inclinou-se levemente na minha direção, seu perfume mesclando-se ao cheiro amadeirado das poltronas velhas. — Eu não podia dizer não.
Virei o rosto para encará-lo e encontrei seu olhar pousado em mim, firme, caloroso.
— Eu sei que você estava trabalhando.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Nada é mais importante do que você.
O ar ficou pesado ao meu redor. Meu estômago revirou e, sem pensar, entrelacei meus dedos nos dele, sentindo o calor da sua pele contra a minha.
— Estou nervosa. — Confessei, exalando devagar.
Nicolas apertou minha mão de leve.
— Por quê?
Suspirei, sentindo o peso do meu próprio julgamento.
— Eu queria ter conseguido treinar Camila melhor. O espaço que tínhamos era muito limitado, e talvez isso tenha refletido na forma como ela não está crescendo tanto no palco agora.
Ele me olhou com seriedade.
— Você sabe que ambas deram o melhor de si.
Assenti lentamente.
— Sim… Mas às vezes sinto que meu melhor não foi o suficiente.
Nicolas não disse nada imediatamente, apenas virou a câmera que trazia pendurada no pescoço e tirou uma foto do palco, ajustando o foco com precisão antes de clicar.
Foi quando seu olhar endureceu levemente.
— Aquela ali… é Helena?
Segui seu olhar e meu estômago afundou.
— Sim.
Ele franziu o cenho.
— Isso é antiético.
— Extremamente. Ela não só se inscreveu depois da Camila, como foi procurada para treiná-la e, em vez disso, se inscreveu para concorrer com ela.
Ele passou a língua pelos dentes, impaciente.
— Se eu soubesse de todas essas coisas sobre ela antes, nunca teria deixado Helena ser professora da minha filha.
Meus olhos se suavizaram quando vi a culpa passar pelo seu rosto.
— Agora seria impossível afastar Amélie do balé.
Ele refletiu por um instante, depois voltou a me encarar.
— Você tem certeza de que não quer dar aulas para ela?
Fiquei em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso daquela proposta de forma diferente dessa vez. Talvez eu realmente devesse trazer o balé de volta para minha vida. Assim como Nicolas estava trazendo a fotografia de volta para a dele.

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