~AYLA~
Meus olhos estavam fixos no homem abaixo de mim, e, por mais que eu quisesse me mover, ele segurava minha cintura com tanta força, puxando-me contra ele, que qualquer tentativa de escapar parecia impossível. Um arrepio percorreu meu corpo, mas eu não sabia dizer se era devido ao frio ou pela forma como nossos corpos se tocavam de maneira tão íntima e inesperada.
Ele era alto, com ombros largos e braços fortes. Seu rosto era angular, de traços marcantes, com uma mandíbula firme e bem definida. Os olhos, de um azul profundo, transmitiam uma frieza impenetrável, mas eram intensos o suficiente para prender qualquer um que se atrevesse a encará-los por muito tempo. O cabelo escuro, encharcado pela chuva, e a barba cerrada davam a ele um ar de mistério e poder.
De onde eu conhecia aquele homem? Era possível que fosse da boate? Eles eram sempre de lá, não eram?
De repente, uma pontada aguda explodiu na minha cabeça, como se algo tivesse sido arrancado à força do meu cérebro. Eu gemi baixinho, levando uma das mãos à têmpora. Era uma dor diferente, profunda, quase como se algo estivesse tentando emergir das profundezas da minha mente.
"Lembre-se..."
Uma voz ecoou distante, como um sussurro perdido no vento. Olhei em volta, confusa, mas não havia ninguém além dele.
— Qual é o seu nome? — perguntou, quebrando o silêncio entre nós.
Engoli em seco, sem responder de imediato. Aquele tom firme me tirou do transe em que estava presa, e a realidade começou a se impor novamente. Eu queria me levantar, sair correndo, mas ele não me deixava. Tentei me afastar, mas ele foi rápido, erguendo-se de uma vez e segurando meu braço com firmeza, impedindo minha fuga.
— Espera — ele pediu, sua voz agora mais suave, mas ainda carregada daquela mesma autoridade impossível de ignorar. — Se você sair assim, vai acabar pegando uma pneumonia.
Um riso irônico escapou dos meus lábios antes que eu pudesse evitar. Pneumonia? Eu estava prestes a acabar com minha própria vida. O que era uma pneumonia perto disso? Ele não fazia ideia de como as coisas eram irrelevantes para mim naquele momento.
Ele, no entanto, ignorou meu riso amargo e sugeriu:
— Vem, se aqueça um pouco na minha sala antes de ir. Não posso te deixar assim.
A luta interna foi imediata. O impulso era recusar, me virar e correr o mais longe possível, mas o calor que emanava dele, a suavidade no tom da voz e o cansaço nos meus ossos, de alguma forma, me impediram.
Antes que eu pudesse tomar uma decisão, meu corpo parecia agir sem a minha permissão, e o segui até a escada. Algo em seu jeito me desarmava, algo que eu não estava pronta para entender.
Enquanto descíamos, mais uma pontada cortante atingiu minha cabeça, me fazendo tropeçar. Nicolas percebeu, segurando meu braço com mais firmeza.
— Está tudo bem? — perguntou, o rosto franzido de preocupação.
Confirmei com um leve aceno de cabeça. Mas não estava nada bem.
"Você precisa se lembrar..."
A voz novamente, agora mais nítida, mas tão distante quanto antes. Balancei a cabeça, tentando afastar a sensação, mas a dor permaneceu latejando suavemente no fundo da minha mente.
Entramos na sala dele, e a suavidade do ambiente contrastava com a frieza da chuva que ainda caía do lado de fora. Ele ligou o aquecedor, e a temperatura começou a subir, me dando algum conforto momentâneo. Olhei ao redor, tentando manter minha distância, meus pensamentos desconectados. Ele indicou o sofá.
— Sente-se, vou pegar algo para você.
Eu ainda hesitava. Ele não me conhecia, e eu não conhecia a ele. Mas algo naquela sala, nas luzes baixas e nos móveis sofisticados, fez com que minha resistência começasse a ruir. Eu não sabia mais o que fazer. O que ele queria comigo? Não podia ser simples piedade.
Enquanto esperava, olhei ao redor. As paredes estavam repletas de prateleiras cheias de documentos e troféus empresariais. Havia quadros de projetos arquitetônicos e uma enorme mesa de madeira escura no fundo do lugar. Tudo ali gritava poder e sucesso. Observei a plaquinha em cima da mesa, onde se lia "Nicolas Sartori."
Nicolas... Esse nome parece... importante. Por quê?
Mais uma vez, aquela dor perfurou minha mente, e minha visão embaçou por alguns segundos.
Nicolas voltou pouco depois, já usando roupas secas e segurando uma toalha felpuda e algumas peças de roupa.
— É o que eu tenho, mas vai te manter aquecida — disse ele, indicando o banheiro. — Troque de roupa. Vou esperar aqui.
Sem dizer nada, obedeci, me dirigindo ao banheiro e trocando minhas roupas molhadas pelas que ele havia me dado. A camisa pendia nos meus ombros, e as calças largas quase caíam, mas ao menos estava seca e aquecida.
Quando voltei para a sala, ele estava me esperando com uma xícara de chocolate quente. Aceitei sem dizer nada, sentando-me novamente no sofá, a bebida reconfortante aquecendo minhas mãos geladas. Ele se sentou à minha frente, observando-me com uma intensidade que me deixava desconfortável.
— Então… Qual é o seu nome? — perguntou novamente.
Respirei fundo e tomei um gole do chocolate, tentando manter a voz firme.
O que ele dizia mexia comigo de formas que eu não queria entender. Eu não tinha ninguém. Ele tinha perdido alguém, isso eu entendia, mas a dor que ele carregava não podia ser comparada à minha.
Respirei fundo e, finalmente, falei:
— Eu não tenho ninguém que vá te agradecer por isso.
Nicolas balançou a cabeça, seus olhos suaves, mas decididos.
— Duvido muito que isso seja verdade.
Minha mente vagou para Teri. Ela se importaria... Pelo menos, ela se importaria. Mas era só isso. Ninguém mais.
Nicolas quebrou o silêncio novamente:
— Você desistiu daquela ideia idiota?
— Sim — respondi, mas vi nos olhos dele que ele não acreditava. Sua expressão era de quem sabia que minhas palavras não eram completamente sinceras.
— De qualquer forma, acho melhor passarmos no hospital para ver se está tudo bem com você.
Eu sabia o que ele estava fazendo. Provavelmente, queria que eu falasse com algum psicólogo e depois procurasse por familiares. Não havia ninguém. Eu não tinha mais família. Sabendo que essa era uma briga perdida, assenti, derrotada.
— Só... posso tomar mais uma xícara de chocolate quente antes, por favor?
Nicolas sorriu, um sorriso pequeno, mas genuíno, e se levantou.
— Claro. Só um minuto, minha secretária já foi embora há muito tempo, então eu mesmo vou fazer. Espere aqui.
Ele se afastou, e ouvi o som da porta do elevador se fechando. Era a minha oportunidade. Assim que ele saiu, pulei do sofá, peguei minhas roupas molhadas e corri pela porta. Desci as escadas o mais rápido que pude, o coração batendo descontroladamente, até finalmente sentir o ar frio e úmido da rua.
E com isso, fugi mais uma vez.

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