O dia amanheceu com um sol tímido, escondido entre nuvens esbranquiçadas, como se o céu estivesse tentando proteger Helen de algo que nem mesmo ele conseguia nomear. Mas para ela, aquela manhã tinha gosto de recomeço, de esperança.
Helen acordou ao som do celular vibrando na cabeceira. Era a notificação da consulta marcada com antecedência. Exames de rotina, ultrassonografia e monitoramento do bebê. Ainda que soubesse que tudo corria bem, o coração sempre acelerava um pouco quando ela pensava naquela vida crescendo dentro de si.
Um bebê. O Filho dela e de Ethan.
Ela se virou na cama e sorriu ao ver Ethan ao seu lado, dormindo de bruços, o cabelo bagunçado, os lábios entreabertos. Ele parecia em paz e desde que voltaram a dormir juntos, ela podia jurar que seus pesadelos tinham diminuído. Ethan mexeu-se devagar, como se sentisse o olhar dela.
— Já está me espionando de novo? — murmurou, ainda com a voz rouca.
Helen riu baixinho.
— Quem manda ser bonito até dormindo?
Ele virou-se de lado e a puxou pela cintura, colando o corpo dela ao seu.
— Eu te amo, sabia?
— Ainda não me acostumei a ouvir isso — disse ela, com os olhos marejados. — Mas espero ouvir por muitos e muitos anos.
— Vai ouvir — prometeu ele, beijando sua testa. — Hoje é dia de ver nosso filho?
— Sim — respondeu, com um brilho nos olhos. — E eu quero que você esteja comigo.
Ethan sorriu, tocando suavemente a barriga ainda discreta dela.
— Eu não perderia isso por nada no mundo.
O consultório era confortável, com paredes em tons pastéis e uma recepção silenciosa, onde se ouvia apenas o leve tilintar de uma fonte decorativa. Helen apertava a mão de Ethan com força, como sempre fazia antes de uma consulta. Ele, por sua vez, passava o polegar no dorso da mão dela, em gestos circulares, tentando acalmá-la.
— Vai ficar tudo bem — disse ele.
— Eu sei. Mas ainda assim fico nervosa.
— É o instinto de mãe já funcionando. — sorriu.
Do lado de fora, do interior de um carro escuro estacionado a poucos metros do prédio, uma câmera com lente teleobjetiva girava lentamente. No banco do motorista, Miranda observava os dois com atenção doentia. Usava óculos escuros e um lenço cobrindo parte do cabelo, mas mesmo com o disfarce, o ódio era visível em cada linha de seu rosto.
Ela apertou o botão e a lente capturou a imagem perfeita: Ethan acariciando a barriga de Helen com ternura. A imagem se fixou na tela como uma punhalada. Miranda sentiu o coração disparar.
— Falsa. — sussurrou. — Você sorri como se estivesse segura. Como se nada pudesse te tocar.
Ajeitou-se no banco e ligou o gravador de voz do celular, como se estivesse narrando um manifesto pessoal.
— Dia um. Helen chegou ao consultório às 10h42, acompanhada de Ethan Carter. Os dois demonstraram intimidade evidente. O local possui duas saídas. Já verifiquei as rotas de acesso. O plano está em andamento. Ela não faz ideia do que eu planejo para ela.
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Helen estava deitada na maca, com o avental hospitalar levantado e o gel frio sobre a barriga. Ethan estava ao lado, em pé, segurando a mão dela enquanto a médica deslizava o transdutor sobre sua pele.
— Aqui está — disse a médica, apontando para o monitor. — Olhem o coraçãozinho batendo.
Helen prendeu o choro. A imagem ali na tela era a confirmação mais bonita de todas: aquele ser minúsculo, tão perfeitamente formado, era parte dela, parte de Ethan. Parte de um novo futuro.
Do lado de fora, Miranda recolheu a lente com cuidado e desligou o equipamento. Havia feito o reconhecimento. Sabia os horários. Os detalhes. Agora precisava de uma brecha. Um instante. Um descuido. E então, Helen não teria tempo nem de gritar.
A ideia de roubar o bebê não era mais uma fantasia. Era um plano. E cada detalhe estava sendo cuidadosamente montado. Não seria como nos filmes, com violência ou correria. Seria sutil. Inteligente, irreversível.
— Você nunca saberá quando vai acontecer, querida. — sussurrou. — Mas quando acontecer… eu já estarei longe. Com ele nos meus braços. E você… no chão, vazia.
Ela arrancou com o carro, sumindo entre os outros veículos da avenida, deixando para trás apenas a ameaça invisível de um mal prestes a florescer.
Helen saiu da clínica com um sorriso no rosto e as imagens do ultrassom nas mãos. Ethan a envolveu com o braço, orgulhoso, protetor.
— Está pronta para almoçar? — ele perguntou.
— Estou faminta. E você?
— Sempre com você.
Eles se afastaram entre risos, sem imaginar que estavam sendo vigiados. E que, a partir daquele dia, a sombra de Miranda os seguiria por todos os lados. Porque há inimigos que se escondem atrás de sorrisos. E há dores que voltam… vestidas de vingança.
E enquanto Ethan fazia promessas de proteção e amor eterno, e Helen sonhava com um futuro seguro para seu filho, Miranda já planejava a próxima etapa.
Porque agora, ela não queria apenas destruir.
Ela queria arrancar.
E arrancaria o que Helen tinha de mais precioso. Com as mãos frias e um coração… que há muito deixou de bater por amor.

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