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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 6

Capítulo 6

Mariana Bazzi

A madrugada estava escura como breu. Nenhum poste aceso. Nenhum som além do da minha própria respiração e do coração batendo tão forte que eu mal conseguia escutar os pensamentos. Só precisava chegar até o centro. Talvez encontrasse um bar, um ônibus, qualquer coisa.

Meus olhos marejaram, mas segurei. Não agora, já chega de sofrimento.

Até que ouvi o som de um motor. Pneus no cascalho, precisei apressar o passo.

Um carro se aproximava devagar demais. O farol iluminou minha silhueta, e antes que eu pudesse correr, a porta abriu com violência.

— Olha só... A fugitiva — reconheci aquela voz na hora, era do cassino. Ele parecia que estava parando... Droga!

— Você?! — minha voz saiu trêmula, mas cheia de ódio.

Ele sorriu de um jeito que me embrulhou o estômago. Já havia tentado me comprar do meu progenitor uma vez, como se eu fosse uma mercadoria, mas fugi. E agora, ali, no meio do nada... era como se estivesse realizando um plano antigo dele.

— Seu pai não quis fazer negócio porque você tinha sumido. Que bom que você apareceu sozinha... Vai facilitar.

Tentei correr. Ele foi mais rápido. Agarrou meu braço com força e me jogou contra a lateral do carro, onde derrubei a pequena faca que trouxe das mãos.

— Larga... Larga de mim! — gritei, lutando com tudo o que me restava. Sentindo raiva, pavor.

— Hoje você é minha! Pare de escândalo e entre no carro!

— Não vou! Não encosta em mim! Odeio todos vocês! — lutei contra ele, mesmo com os braços fracos e doloridos.

— Entre no carro, porra! Quer levar na cara? Quer dinheiro?

— Me solta! — tentei empurrar, sentindo o desespero tomando conta de mim. Já não sabia se havia feito a escolha certa em sair da casa do louco que me comprou.

— Você vai ver o que acontece com mulher teimosa! — ele levantou a mão, pronto pra bater, tentei esconder o rosto, com muito medo.

Foi quando ouvi um disparo. Seco, preciso.

O homem gritou e caiu de joelhos, agarrando o braço que agora sangrava. Olhei para os lados apavorada, vi luzes.

— AHHHH! MERDA! PORRA! SUA VADIA, LAZARENTA! OLHA O QUE ACONTECEU POR CULPA SUA! — gritou.

Arregalei os olhos. O mundo parecia girar em câmera lenta.

Era Ezequiel.

Ali estava ele. Respiração acelerada, arma ainda em punho, os olhos selvagens. Como um animal em fúria.

— Quem quer morrer primeiro?! — ele rosnou, avançando.

O homem tentou recuar, se arrastando, mas Ezequiel chutou a arma que tirou da cintura pra longe.

Meus pés recuaram, mas não consegui correr. Meu corpo não obedecia. Tudo doía.

Ezequiel virou o rosto pra mim. O olhar dele era uma mistura de raiva e desespero.

— Você está bem? — perguntou, a voz mais baixa, rouca. Quase falhando.

Mas eu não conseguia responder. Só conseguia olhar para ele. Seus cabelos escuros e soltos cobrindo parte da sobrancelha, seu olhar profundo, a respiração acelerada.

Era o homem que parecia me proteger...

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