No quarto, já seca e vestida com uma roupa confortável, Ava fica diante do espelho e usa uma toalha para secar seu cabelo molhado.
Enquanto faz isso, seus olhos se desviam para a mesa de cabeceira, onde repousava um pedaço de papel meio amassado, onde havia escrito algumas condições para aquele casamento acontecer. Ela franze o cenho e, ainda esfregando a toalha nos fios úmidos, pega o papel para reler.
Ela passa os olhos pela lista, mas trava na primeira linha: “Sem contato físico.”
Bufando alto, revira os olhos.
— Parabéns para mim — murmura, jogando o papel de volta na mesa.
Havia acabado de quebrar a primeira regra, que ela mesma havia criado — e da maneira mais escandalosa possível.
Frustrada consigo mesma, termina de secar o cabelo com um pouco mais de força do que o necessário e j**a a toalha de lado. Depois, senta-se na beira da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos, enterrando o rosto nas mãos.
Mesmo depois do banho, o cheiro de Hector ainda parecia grudado nela, como se o simples toque dele tivesse marcado sua pele.
“Que ótimo, Ava… mal começou e já está perdendo o controle.”
Suspirando, ela ergue a cabeça, tentando se convencer de que aquilo foi só um deslize, algo que não se repetiria.
“Não vai acontecer de novo”, promete a si mesma. Mas, lá no fundo, sabia o quanto aquela promessa era frágil.
Principalmente quando o maior obstáculo era o único que ela secretamente desejava que a fizesse quebrar todas as regras.
Deitando-se na cama, ela tenta esvaziar a mente, mas é inútil.
Ao olhar para o teto, a imagem de Hector volta com força: o toque quente das mãos dele em sua cintura, o beijo que pareceu arrancar sua alma, o modo como suas línguas dançavam juntas, em um ritmo tão perfeito que parecia um instinto.
Ela sente o rosto esquentar de novo, num misto de raiva e frustração borbulhando por dentro.
“O que estou fazendo?”, pensa, apertando os olhos com força.
A culpa pesa no peito. Não pode se dar ao luxo de se distrair desse jeito. Não está ali para se apaixonar, muito menos para cair nos braços do inimigo.
Respirando fundo, tenta recuperar a sanidade.
“Foco, Ava. Lembre-se do que realmente importa.”
É isso. Ela tem um plano. Precisa mantê-lo firme.
Precisa se vingar do homem que tentou destruir a sua vida, que fez tudo virar do avesso. Só após cumprir seu plano, poderia encarar seus pais novamente e mostrar que ainda estava viva, que ainda era a filha que nunca quis se afastar. Queria, desesperadamente, reconstruir o vínculo que o tempo e a dor haviam despedaçado. Mas contar toda a verdade… isso era impensável. Não aguentaria a dor de encarar o julgamento silencioso que os olhos deles lhe imporiam. Precisava de uma desculpa, algo que encobrisse suas feridas, sem revelar o que realmente a havia trazido até aquele ponto. E, por mais loucura que parecesse, no fundo, se agarrava à esperança silenciosa de que Hector fosse a chave para ajudá-la a sustentar essa mentira.
Naquele momento, sente uma pontada no peito só de pensar nos rostos deles. Imaginava como sua mãe devia estar agora, talvez envelhecida pela dor. O pai, talvez, endurecido ainda mais.
“Preciso consertar tudo… preciso trazê-los de volta para mim.”

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