Não foi difícil conseguir um voo de volta para os Estados Unidos. Horas depois, já em solo americano, Charlotte só conseguia pensar em uma coisa: cama.
Quando finalmente entra em casa, larga a mala no corredor, tira os sapatos ali mesmo e segue direto para o quarto.
O silêncio do lugar a envolve como um cobertor, e o corpo parece finalmente entender que pode parar.
Sem nem acender a luz, se j**a na cama, nem tira a roupa, só pensa.
Já estava acostumada com o silêncio daquela casa. Desde que Mark havia se mudado para ficar mais perto do trabalho, passava os dias sozinha e, de certo modo, havia aprendido a conviver com isso.
Nunca fez questão de conhecer alguém novo.
Depois de Ethan, o único homem que teve na vida foi o pai de Mark. Mas nem aquilo deu certo. Ela nunca conseguiu se entregar por completo, nunca se permitiu sentir o suficiente. A verdade é que sempre havia alguém ocupando espaço demais em seu coração… e esse alguém era Ethan Smith.
Passou toda a juventude esperando por ele, por um gesto, uma chance, uma reviravolta qualquer.
E, quando percebeu, os anos haviam passado… e ela ainda estava ali, presa a um amor que nunca foi dela de verdade.
Com o tempo, decidiu que era melhor seguir só.
Mais seguro. Menos doloroso.
E assim foi… até agora.
Mas naquele instante, deitada na própria cama, com o corpo pesado de cansaço e o coração leve por finalmente ter feito o que achava certo, sente que talvez esteja na hora de deixar aquilo para trás. De verdade.
O que viveu com Ethan não precisava ser esquecido.
Mas precisava, enfim, ser deixado no passado.
O cansaço a domina e ela apaga.
[…]
O dia amanhece com um sol generoso iluminando os jardins da mansão Moreau. O clima era tão agradável que, pela primeira vez em mais de um mês que estava ali, Ava decidiu mudar um pouco a rotina. Ao invés de tomar café no quarto, como vinha fazendo desde que chegou naquele lugar, resolveu descer e tomar à mesa.
Queria sentir um pouco da casa, do ambiente. Queria, talvez, lembrar a si mesma de que ainda tinha vida.
Ela desce devagar, vestida com uma roupa leve e confortável, e, ao entrar na sala de jantar, se depara com uma cena inesperada: Hector já estava ali, aparentemente tão concentrado no celular que nem percebe sua chegada.
Ele está sentado à cabeceira, com o cenho franzido e os olhos fixos na tela. Parecia distraído, pensativo… talvez até preocupado. Se aproximando em silêncio, ela nota o que ele está vendo: gráficos, números, então supõe que ele estava de olho no Mercado de ações.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Hector sente sua presença. Num reflexo rápido, bloqueia a tela e levanta os olhos devagar, e encara-a com aquela expressão séria de sempre, a que nunca revelava muito, mas também nunca escondia tudo.
— Bom dia — ela diz, com um leve sorriso, fingindo não ter visto nada.
— Bom dia, que surpresa vê-la em pé tão cedo.
Ava se senta calmamente à mesa, servindo-se de café como se tudo estivesse normal. Mas, por dentro, sua mente gira em silêncio. Ela viu o que ele estava fazendo. E sabe que ele percebeu isso também.
— Decidi aproveitar o dia — explica. — Dia agitado no mercado hoje? — pergunta, levando a xícara aos lábios com a voz casual, mas com o olhar atento.
Ele não responde de imediato. Apenas a observa por um momento, antes de dizer:
— Sempre é. Você quer saber mais? — Hector pergunta, calmo, quase desinteressado.

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