Stefanos
A cabeça dela pesava suavemente sobre minha coxa, como se tivesse encontrado o único lugar no mundo onde poderia descansar em paz.
E talvez tivesse.
Nuria virava as páginas com delicadeza, os dedos deslizando como se o livro fosse sagrado. Às vezes, ela franzia a testa, absorvida na leitura. Outras, os lábios se curvavam em um sorriso discreto. O som das folhas virando era a única coisa que quebrava o silêncio... e eu não me importava.
Eu, o lobo criado no caos, estava em silêncio.
Com a mão livre, meus dedos se moviam lentamente entre os fios do cabelo dela, afagando, enrolando, soltando. Um gesto automático, mas viciante. Eu nunca fui o tipo de homem que oferece colo. Nunca fui o tipo de lobo que se permite ser lar de alguém. Mas ali estava eu, segurando o universo no colo… e tentando entender como isso aconteceu.
"Você quer que eu leia em voz alta?" ela perguntou sem levantar os olhos, como se sentisse que eu a observava.
"Se não tiver sopa envolvida, aceito."
Ela riu, aquele som que me atravessava como uma marreta e, ao mesmo tempo, me curava.
"Escuta isso," ela disse, limpando a garganta antes de ler:
"Alguns lares não têm telhado, nem paredes. Têm pele, cheiro e voz. Alguns lares têm nomes, e os mais perigosos, têm olhos que enxergam além das palavras."
Por um segundo, eu esqueci de respirar.
"Bonito." murmurei, tentando não soar afetado. "Clichê pra caramba, mas bonito."
"Idiota," ela murmurou, mas sem raiva.
"Você me chamou de lar nas entrelinhas, foi isso?" perguntei, arqueando uma sobrancelha que ela nem viu.
"Você é o tipo de lar que derruba a porta com o ombro e invade a casa inteira sem ser convidado."
"Não nasci para ser um lord. Gosto mais do caos."
"Acho que estou começando a mudar de opinião." os olhos dela me encararam por um segundo e ela voltou para o livro.
Ela virou a página com calma, os olhos passeando pelas linhas, e se ajeitou sobre a cama, ainda com a cabeça repousada no meu colo. As pernas se esticaram lentamente, e os pés… frios como sempre.
"Preciso pegar uma meia," murmurou, enfiando os pés debaixo da coberta como quem tenta se esconder do mundo.
"Fica. Eu pego uma pra você."
Deslizei com cuidado, tirando a cabeça dela do meu colo e ajeitando no travesseiro. Os cabelos negros se espalharam sobre o tecido claro como tinta derramada e eu quase esqueci o que ia fazer. Sempre esquecia alguma coisa quando olhava pra ela assim.
"Na verdade, precisamos comprar algumas coisas pra você." falei enquanto caminhava. "Não tem nada seu aqui."
"Vou pensar em algo," ela respondeu, já com aquele tom de quem vai querer discutir depois.
Bufei. Ela não sabia, mas eu já tinha feito uma lista mental de tudo que queria comprar. E tudo envolvia vê-la pertencendo àquele lugar. À minha vida.
Abri a gaveta e peguei uma das minhas meias. Dobrei e já ia voltar, quando levantei os olhos e vi a caixa no alto da prateleira.
A caixa da Rayara.
Me aproximei devagar, como se aquilo fosse sagrado . Abri a tampa e revirei algumas lembranças esquecidas, até que meus dedos tocaram o pequeno estojo de veludo preto.
A tornozeleira ainda estava lá. Intacta. Prata fina, discreta. Um pingente em forma de lua crescente pendia delicadamente da corrente.
Comprei aquilo pra ela pouco antes de tudo acontecer.
Ela nunca chegou a usar.
Por anos, aquela joia foi só um lembrete do que me foi tirado. Do que nunca pude proteger.
Nunca cogitei dar a ninguém. Não por apego. Mas porque ninguém parecia... digno.
Até Nuria.
Se ela merecia o violino, por que não a joia? Por que não tudo?
Fechei a caixa, segurei a meia em uma mão, o estojo na outra, e voltei para o quarto.
Me ajoelhei ao lado da cama.
Ela estava acordada, e os olhos me seguiam com curiosidade. Atenta. Presente. Minha.
"O que é isso?" ela perguntou, a voz rouca e baixa, se apoiando nos antebraços.
"Herança," respondi. "Ou penitência. Depende do ponto de vista."
Peguei o tornozelo esquerdo dela com delicadeza. O pé estava frio. Frio como os dedos de alguém que toca piano em um teatro vazio.
"Você é feita de gelo, por acaso?"
"E você é feito de lava. A gente se equilibra."
Soltei um riso fraco, e sem dizer mais nada, fechei a tornozeleira ao redor da pele dela. O metal brilhou por um segundo, refletindo a luz suave do abajur.
"É linda," ela disse, tocando o pingente.
"Era da minha irmã."
Ela congelou.


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