Stefanos
"Ela não é sua."
Três palavras. Simples. Cruéis. Precisamente lançadas como flechas, e todas acertaram o mesmo alvo: meu instinto.
O papel estava amassado entre meus dedos quando levei até o rosto. Fechei os olhos e aspirei fundo.
Tinta. Papel antigo. Um toque de ferrugem. E… algo mais. O cheiro de um lobo. Masculino. Calculado. Familiar, mas diluído. Alguém que teve acesso. Que entrou aqui.
Na minha casa.
Minha mandíbula travou, o maxilar pulsando com o esforço de não quebrar algo.
Saí do quarto sem fazer barulho. Não queria que Nuria acordasse. Ainda não. Ela merecia paz. E eu... eu merecia sangue.
Caminhei pelo corredor em passos silenciosos, farejando o ar com atenção. Cada célula do meu corpo estava em alerta. Minha pele formigava. Minha visão se ajustava à escuridão. Meus ouvidos captavam até o som das paredes respirando.
O bilhete ainda estava comigo, e eu o virei entre os dedos mais uma vez, tentando identificar cada traço. A caligrafia era limpa. Quase refinada. O que indicava alguém que queria provocar, não apenas ameaçar.
Isso não é apenas um recado.
É uma violação.
Alguém entrou na minha fortaleza. Passou pelos meus guardas. Ultrapassou meus sensores. E chegou até ela.
Meu lobo estava rosnando por dentro, os pelos da nuca eriçados. Ele queria sair. Caçar. Rasgar.
Nomes começaram a se formar na minha mente.
Johan? Impossível. Ainda na cela.
Algum espião de Solon? Provável.
Um enviado do Supremo? Possível. Mas não com essa ousadia. Não sem querer morrer.
Desci as escadas. O corredor da ala leste estava silencioso demais. Cheirei o ar, tocando a parede com a mão nua. O cheiro do invasor era fraco, mas ainda recente. Passou por aqui.
Duas portas adiante, cruzei com um dos guardas noturnos.
"Você viu alguém passar por aqui?" perguntei, a voz baixa, gélida, letal.
O lobo arregalou os olhos, erguendo-se de imediato.
"N-não, Alfa. Tudo tranquilo nas rondas."
"Mentira."
Dei um passo à frente, e ele recuou por instinto.
"Alguém entrou. E você não viu."
"Talvez tenha sido... alguém interno. Um dos criados..."
"Cale a boca."
Rosnei. O lobo dentro dele se calou no mesmo instante.
Continuei pelo corredor, cada centímetro do chão sob análise. Os cheiros se sobrepunham, mas havia algo... algo incômodo, como um perfume disfarçado em sujeira. Quase conhecido. Mas camuflado.
Agachei perto da base de uma das colunas e vi um reflexo pequeno contra a pedra polida. Estiquei a mão e peguei.
Um botão.
Preto. Com um símbolo entalhado, minúsculo demais para ser casual. Um traço curvo, como uma serpente entrelaçada numa lua minguante.
Levei ao nariz.
Aquele cheiro…
Engoli em seco.
Não era apenas familiar.
Era antigo.
Algo que ligava gerações.
Levantei devagar, os olhos cravando no botão como se ele fosse uma declaração de guerra.
Eles sabiam.
Eles sabiam onde ela estava.
E queriam que eu soubesse que sabiam.
Foi aí que veio o grito.
O grito dela.


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