Jenna
A casa dele era mais afastada, discreta, cercada por árvores altas que deixavam a entrada parcialmente sombreada, mesmo à noite.
Ele destrancou a porta, empurrou devagar e me lançou aquele olhar de lado, com o sorriso de canto que já começava a ser minha destruição pessoal.
"Quer entrar ou vai continuar parecendo uma agente secreta da alcateia?" ele brincou, encostado na porta, me observando como se fosse a coisa mais engraçada da noite.
Cruzei os braços, tentando manter a pose. "Talvez eu seja uma agente secreta em missão. Você não sabe da minha vida."
Entrei antes que alguém resolvesse bisbilhotar do lado de fora. Assim que passei pela porta, parei no meio da sala, ampla, confortável… mas estranhamente impessoal. Nada ali parecia dele.
Era como se o ambiente inteiro tivesse sido montado por alguém que queria se esconder. Ou simplesmente... não sabia como pertencer.
"Sei que você está de óculos com glitter e usando um xale de vó," ele disse, se aproximando com aquele jeito calmo e firme que só ele tinha. "Isso já me dá o direito, como beta, de intervir."
Sorriu de canto, e algo no tom dele me desarmou sem nem tocar.
"Posso?" ele perguntou, erguendo a mão com lentidão até o meu rosto. A gentileza do gesto contrastava com a força da presença dele e me pegou completamente desprevenida.
Assenti em silêncio, e ele tirou os óculos com uma lentidão exagerada, como se estivesse desembrulhando um presente raro.
"Melhor. Agora posso ver seus olhos," murmurou, guardando os óculos num aparador logo na entrada. "E esse xale..." ele deslizou os dedos pela barra do tecido e puxou de leve, me livrando dele com uma reverência silenciosa. "Está oficialmente aposentado por hoje."
Sorri, sentindo o rosto esquentar.
"Até eu voltar para a mansão posso concordar com isso..." ele olhou com desgosto para o xale e sorriu.
"Fique a vontade. Sente onde quiser. Vou preparar alguma coisa pra gente comer."
"Você cozinha?" perguntei, caminhando devagar, observando o lugar.
"Não tão bem quanto você assa pães na cozinha da mansão," ele respondeu lá da área da cozinha, "mas o suficiente pra não matar ninguém."
"Isso me tranquiliza, mas se precisar de um par de mãos extras, as minhas estão disponíveis."
"Confia em mim, pequena." Ele virou de leve o rosto e piscou. "Vai valer a pena."
Segui até o sofá e sentei na ponta, como se meu corpo inteiro ainda não soubesse se podia relaxar ou não.
Do outro lado da casa, ouvi o som de panelas, o estalo da chama acesa e o aroma de algo que definitivamente não era sopa.
Franzi o cenho, curiosa.
Rylan surgiu na cozinha com as mangas dobradas, o avental amarrado com pressa e um jeito focado que me fez sorrir sem querer. Nada nele era exagerado. Nenhum movimento era à toa. Até cozinhar, ele fazia como se fosse um plano de guerra.
"Isso está cheirando... bem mais elaborado do que eu esperava," comentei, me inclinando no sofá.
"Esperava o quê? Macarrão instantâneo?" ele rebateu, erguendo uma sobrancelha.
"Ou no máximo uma sopa de saquinho."
"Isso foi ofensivo." Ele fingiu um suspiro dramático, e depois sorriu de lado. "É frango com legumes ao molho de vinho e batatas rústicas. Você vai gostar."
"Você cozinha isso normalmente?"
"Sim... quando se passa muito tempo sozinho, você tem que aprender a se virar." Ele virou de costas, mas a frase ficou no ar. Como se dissesse muito mais do que o tom casual deixava transparecer.
Me calei por alguns segundos, observando a forma como ele se movia pela cozinha. Com firmeza. Com método. Com um tipo de silêncio que gritava.
Rylan era sempre assim? Ou era só quando estava longe da alcateia?
"Você mora aqui faz muito tempo?" perguntei, sem conseguir esconder a curiosidade.
"Desde que Stefanos se tornou Alfa. Antes disso, eu vivia nos campos de treinamento aprendendo a ser o segundo no comando." Ele abriu o forno, checou algo lá dentro, depois se virou pra mim com uma expressão leve, mas os olhos… os olhos carregavam uma sombra que eu não soube nomear. "Aqui é tranquilo. Ninguém aparece sem ser chamado."
Assenti devagar, puxando os joelhos até o peito no sofá.
Era estranho estar ali. Era... íntimo.
Mas não era desconfortável.
O problema era o que eu sentia por dentro. A bagunça que ele causava só de existir.


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