Nuria
A respiração ainda parecia pesada, como se cada inspiração exigisse mais do que eu podia dar.
A dor de cabeça vinha em ondas, mas era o enjoo que mais me incomodava. Uma náusea insistente que não me deixava em paz, como se meu corpo tivesse entrado em guerra com algo que eu mesma desejei.
Estava encolhida na cama, abraçada à camisa de Stefanos. O cheiro dele era tudo o que me mantinha ancorada. Madeira, fumaça e algo mais... algo que só existia nele. Aquilo era meu abrigo. Minha muralha. Meu antídoto.
A porta se abriu devagar.
"Trouxe outra camisa pra você," disse Jenna, entrando com passos leves e um sorriso gentil, mesmo visivelmente tensa.
Aceitei a peça com cuidado, mas não a troquei. Apenas segurei mais forte a que já estava comigo, apertando-a contra o peito. O gesto dela me dizia mais do que palavras: mesmo no meio de tudo, ele ainda estava cuidando de mim.
“Ele mandou você trazer?” perguntei, num sussurro cansado.
Ela assentiu. “"Mandou. Disse que, se você achar que o cheiro está fraco, ele corre em volta da casa até suar. Que talvez precise de um cheirinho novo se o enjoo continuar piorando.” ela riu e fiz o mesmo.
"Ah Stefanos..."
Sorri com os olhos fechados, apertando a camisa no rosto.
Aquele homem estava no meio de uma caçada e mesmo assim se lembrava de mim. Da minha fome. Do meu estômago. Do que me fazia sentir segura.
Mas eu odiava estar aqui, inerte, enquanto ele enfrentava tudo sozinho.
“Jenna…” sussurrei, abrindo os olhos. “Me faz um favor?”
“O que quiser.”
“Meu celular. Está na cômoda. Preciso pesquisar uma coisa.”
Ela me entregou o aparelho e eu digitei com dedos trêmulos:
“alimentos que diminuem enjoo no início da gravidez”.
Folhas de hortelã. Biscoitos simples. Gengibre.
Tentei memorizar. Respirar. Sentir menos culpa por não conseguir manter nada no estômago.
"Tem como você pedir para a cozinheira fazer alguma coisa dessa lista?" Entreguei o celular para ela que me olhou concordando.
"Eu já liguei para o seu médico, ele passou um medicamento manipulado para auxiliar nesse desconforto também. Assim que ficar pronto, vão enviar aqui para a mansão." agradeci, me sentindo mais tranquila com isso também.
"É horrível, sabia que poderia ser assim, minha mãe ficou péssima na gravidez do Elias, mas..."parei de falar me lembrando dos momentos, de como foi, e me vi nela. "Lembro que, quando ela completou três meses, os sintomas desapareceram. Ela voltou a sorrir. A respirar."
"Então não precisa se preocupar, logo você também estará tranquila e poderá curtir sua gravidez." levei minha mão ao ventre alisando e pensando em tudo o que aconteceria a partir de agora.
"Espero que sim..." suspirei.
"Vou até a cozinha fazer seu pedido a cozinheira...bom se ela ainda estiver lá..." meus olhos se abriram e a encarei.
"E por que não estaria?" ela mordeu o lábio. "Jenna, eu te conheço muito bem... me fale o que aconteceu. Stefanos está conseguindo lidar com isso?"
Jenna hesitou.
“Ele está feroz,” disse enfim. “Fez todo mundo tremer. Inclusive o Johan. E... talvez eu tenha deixado escapar uma coisa que não devia.”
Levantei o olhar, tensa. “O quê?”
Ela mordeu o lábio. “O bebê.” me sentei na cama, soltando as camisas.
"Ele não fez isso..."
"Fez... mas todos agora tem um motivo para tremer."
"E para me caçar. Ah, lobo teimoso..." escondi o rosto na palma. "Como ele acha que posso me defender desse jeito. Não consigo nem parar em pé?" rosnei alto e ela se assustou.
“E mesmo assim estou pedindo.”
Jenna tentou intervir, mas ele a silenciou com um olhar. Rylan caminhou até mim, tirou um pequeno objeto do bolso e o estendeu.
Um colar simples.
Corrente de couro escuro, com um pingente de metal envelhecido. Um símbolo cravado, um círculo com duas linhas cruzadas no centro.
Minhas pernas perderam a força.
"Oh minha Deusa."
Me sentei devagar na beira da cama, os dedos se fechando lentamente ao redor do pingente. O peso dele em minha mão parecia maior do que deveria.
“Esse colar…” sussurrei, “era do meu pai.”
O silêncio caiu como uma sentença.
Rylan se mexeu, desconfortável. Jenna ofegou atrás de mim.
“Você tem certeza?” ele perguntou.
Assenti, ainda encarando o objeto.
“Eu estava com ele quando meu pai foi morto. Estava no chão da nossa cabana… eu o escondi no bolso, mesmo sem saber por quê. Depois que fui para a Invernal… eu o perdi. Nunca mais o vi.”
Olhei para Rylan, a voz fraca, mas firme.
“E agora ele aparece... no meu quarto.”
O ar ficou mais pesado. A dor em meu peito se misturava ao pânico. Alguém estava brincando comigo. Com as minhas memórias. Com minha segurança.
"Alguém quer que eu saiba que esteve aqui," murmurei. "Alguém que conhece o meu passado… e sabe exatamente onde me atingir."

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