A Trégua
Carlos ficou em silêncio por alguns segundos, como se o chão tivesse sumido debaixo dos pés.
O olhar dele se encheu de fúria — não contra Cláudia, mas contra a lembrança da própria irmã.
— Eu pensei em você tantas vezes… — a voz saiu rouca, pesada de mágoa. — Me fiz inúmeras perguntas, Cláudia. Eu me culpei. Achei que você tinha percebido que era infeliz ao meu lado… que tinha se cansado de mim.
Ele apertou os lençóis com força, o maxilar travado.
— Mas foi a Carla. — cuspiu, os olhos faiscando. — Ela destruiu a minha vida com uma mentira. Roubou a chance que eu tinha de lutar por nós!
Cláudia o observava, os olhos marejados.
Carlos respirou fundo, tremendo de raiva e dor.
— E eu… eu acreditei. — completou, mais baixo, como quem confessa uma ferida antiga. — Nunca desconfiei dela. Nunca.
O quarto ficou em silêncio, pesado como chumbo.
Cláudia estendeu a mão, tocando o braço dele com ternura.
— Carlos… não foi só você que perdeu. Eu também. — disse, a voz embargada. — E agora… só nos resta a verdade.
Carlos ergueu os olhos, ainda vermelhos, mas faiscando com uma chama nova.
— Chega. — disse, a voz firme. — Estou cansado de ver a Carla passar impune, manipulando todos ao redor. Ela me roubou de você, envenenou a Eloise contra pessoas que a amam e ainda posa de vítima.
A respiração dele saiu pesada.
— Eu prometo, Cláudia. — o tom era quase um juramento. — Vou cobrar cada mentira. Cada veneno que ela espalhou. E, dessa vez… ela não vai sair ilesa.
Cláudia apertou a mão dele, firme, mas com doçura.
O olhar, ainda úmido, se suavizou.
— Carlos… — disse baixo. — Eu entendo sua dor. Mas agora precisa se acalmar. O médico falou que sua recuperação está ótima, e é disso que precisamos. De você forte, fora dessa clínica… pronto pra cuidar da Eloise e, quem sabe, até de nós.
Ele respirou fundo, o peito arfando, mas permitiu-se encostar no travesseiro.
O silêncio veio como bálsamo.
Cláudia sorriu de leve, acariciando o dorso da mão dele.
— Primeiro, repouso. Depois… ela vai pagar, no tempo certo.
Carlos fechou os olhos, vencido pela exaustão — mas a determinação ainda queimava em seu semblante.
E Cláudia ficou ali, em silêncio, guardando no coração uma promessa.
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O apartamento de Eloise estava silencioso, apenas o som do teclado e o ruído distante da rua.
Ela tentava se concentrar no trabalho, mas o coração ainda dançava entre passado e presente.
Os fones de ouvido pendiam no pescoço, e uma xícara de café já fria descansava ao lado.
Os dedos corriam sobre o teclado, os olhos atentos às linhas de código e às planilhas abertas.
Ela havia desenvolvido um sistema piloto capaz de integrar os dados da VisionLab e da MonteiroCorp, automatizando processos e otimizando o controle de projetos — algo que poderia mudar completamente a comunicação entre as duas empresas.
— Se isso funcionar, economizamos meses de retrabalho. — comentou Patrícia, inclinando-se curiosa sobre o monitor. — E ainda te transformo em lenda dentro do setor.
Eloise riu, sem desviar o olhar da tela.
— Lenda nada. Só quero que o servidor não trave dessa vez.
Álvaro passou atrás delas com uma caneca de café, fingindo tom de drama.
— Olha só… duas gênias conspirando pra roubar meu cargo.
As duas riram. O clima no andar da VisionLab estava leve — algo raro nos últimos dias.
— Então, Eloise, o que tem pra me mostrar? — perguntou Álvaro, agora se aproximando.
Eloise explicou o funcionamento do sistema com firmeza e clareza.
Mostrou relatórios, integrações e projeções. Quando terminou, Álvaro ficou alguns segundos em silêncio, claramente impressionado.
— Isso é excelente. — disse, enfim. — Trabalhe nos ajustes e me apresente o protótipo final. Assim que estiver pronto, marcamos com o Heitor.
Eloise assentiu, o sorriso discreto refletido na tela.
— Pode deixar. Vai valer a pena.
Pela primeira vez em semanas, um rastro de leveza voltou ao rosto de Eloise.
Entre códigos, cafés frios e ideias que podiam mudar tudo — ela voltava a ser ela mesma.
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No fim da tarde, Eloise salvou o último arquivo e fechou o notebook.
— Tomara, porque já decorei o cardápio daqui e nenhum prato presta. — resmungou, antes de suspirar. — Sabe… vocês são novas demais pra ficarem presas num hospital com um velho ranzinza numa sexta-feira.
— Pai… — começou Eloise.
— Sem “pai” nem sermão. — ele cortou, rindo. — Hoje é sexta-feira. Vão dançar, rir, viver. Deixem eu aqui sozinho, prometo que não vou fugir.
— Ah, então quer ficar sozinho… — provocou Nathalia, cruzando os braços com teatralidade. — Ou será que o senhor tá esperando alguma enfermeira e a gente tá atrapalhando o romance?
O sorriso de Carlos se alargou.
— Será? Então talvez eu precise trocar de pijama, hein? — disse, arrancando gargalhadas de todas.
Emma fingiu indignação.
— Tio Carlos, o senhor não tem jeito!
— É a idade, minha filha. Quando a gente chega nela, só sobra o humor pra salvar a dignidade. — respondeu, divertido.
Eloise riu, balançando a cabeça, e se inclinou para beijar a testa dele.
— Tudo bem, a gente vai. Mas amanhã passamos cedo aqui, tá?
— Combinado. — respondeu ele, com aquele olhar de quem carregava o coração leve e cheio ao mesmo tempo. — Agora vão… e vivam. Mas juízo.
— Sem promessas! — gritou Nathalia da porta, fazendo ele rir alto.
As meninas se despediram entre risadas e promessas de trazerem “atualizações da noite” no dia seguinte.
E, como se o tempo tivesse sido perfeitamente cronometrado, assim que saíram do quarto, a porta do elevador se abriu.
Cláudia surgiu com uma sacola de frutas e um sorriso sereno — o tipo de presença que trazia paz só de entrar no ambiente.
— Boa noite, Carlos. — disse ela, parando à porta.
Ele sorriu, ajeitando os óculos.
— Boa noite, Cláudia. Que bom ver você.
O olhar dele suavizou, como se o coração, ainda inquieto, encontrasse abrigo.
Lá fora, a noite caía sobre a Cidade Norte — comum, simples,
mas para eles dois…
era o início de um novo capítulo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...