CAÇA
O capanga rastejava pelo mato com a dor grudada nas costelas, mas a dor era só detalhe diante do ódio que o queimava por dentro. Cada respiração era raiva. Cada passo, vontade de acertar quem lhe devia algo — mesmo que essa coisa fosse só sangue e ordens.
Ele tirou o celular do bolso, as mãos trêmulas. Discou.
— Chefe, ela fugiu — ofegou. — A garota e a sua mulher, Márcia. Tô no mato atrás delas. Elas tão tentando dar a volta pra pegar a estrada. Não sei dizer exatamente onde.
Do outro lado da linha, a voz de Antônio veio baixa, como um corte:
— Cachorra. Acha essa garota. Agora.
— Chefe, não volte pra fazenda. A polícia invadiu lá. Mas coloca gente na ponte, tem um rio mais a frente, elas vão tentar seguir o rio. Não vão ter coragem de atravessam o rio gelado. Põe homens antes da ponte e espera.
Antônio desligou antes que o capanga pudesse responder. Ficou olhando a tela como se o mundo inteiro coubesse naquele retângulo luminoso.
— Preciso de homens que queiram dinheiro e não tenham dó. — falou para o motorista sem esperar réplica.
— Ok, chefe. — o motorista murmurou.
Na cidade, homens aceitaram a conta: cem mil por quem trouxesse as mulheres vivas. Valor suficiente para corromper qualquer consciência.
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Eloise e Márcia chegaram ao rio exaustas. O sol tímido batia cansado nas águas, o vento trazia cheiro de terra molhada e folhas esmagadas. Pararam, ajoelharam-se na margem, encheram as mãos com a água fria e beberam como quem tenta roubar força de um mundo que insiste em despedaçar tudo.
— Tenho a impressão de que alguém nos segue — sussurrou Eloise, a voz curta, os olhos vasculhando as sombras entre as árvores.
Márcia olhou para a mata e encolheu os ombros:
— Pode ser impressão. Vamos seguir o rio para cima. Talvez encontremos a estrada, uma casa, alguma coisa.
Elas recomeçaram a andar. Os passos tornaram-se lentos, arrastados. O cansaço enrouquecia o corpo e as palavras. O choro estava perto, mas nenhuma queria dá-lo; tinham regras silenciosas de sobrevivência.
Atrás, no mato, o capanga avançou acelerando. A dor nas costelas já nem doía tanto quanto a raiva. Rastros úmidos no chão o levaram direto até a margem do rio.
— As coelhinhas não são espertas — murmurou, rindo baixo.
A quarenta minutos dali na ponte homens armados se puseram em movimento. O comando vinha claro, sem misericórdia: cercar, prender, trazer. Era caça por dinheiro. Era serviço feito para quem não pergunta muito.
O vento mudou de direção. O rio seguiu seu curso. Eloise e Márcia caminhavam sem saber que, poucos quilômetros à frente, uma rede se fechava.
O som das botas no mato se misturava ao sussurro das árvores. A ponte esperava. E por trás dela, o ódio de um homem que não poupava nada nem ninguém.
O sol estava descendo devagar, pintando o céu num laranja que não combinava com a respiração curta de Eloise.
O rio corria abaixo delas, estreito, frio, cortando a mata como uma linha de faca.
Márcia foi a primeira a subir a trilha estreita.
Galhos arranhavam os braços.
Terra solta descia sob os pés.
— Cuidado — Eloise disse, ofegante.
— Não para. — Márcia respondeu, sem olhar para trás.
Atrás delas, na mata, o capanga avançava.
Não correndo. Não berrando. Não tropeçando.
Andando.
Como quem já sabe que a presa vai cansar primeiro.
A trilha subia mais. Mais íngreme. Mais estreita.
O vento começou a bater de lado, trazendo cheiro de pedra, musgo… e altura.
Estavam chegando ao alto.
Às pedras.
Ao penhasco.
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O capanga parou no início da subida.
Apoiado em uma árvore, arfando, sangue escorrendo do ombro.
Mas ele sorriu.
Não era cansaço.
Era fome.
Ele pegou o celular, dedos sujos de terra apertando as teclas.
— Chefe… encontrei o rastro. Elas tão subindo uma trilha. — disse, com um riso curto, sujo de ódio. — Não tem pra onde correr lá.
Silêncio do outro lado.
Então a voz.
Aquela voz.
Antônio.
— Não encosta nelas.
O capanga franziu o rosto.
— Senhor?
— Eu estou indo pessoalmente.
A respiração do capanga parou por meio segundo.
Porque quando Antônio ia pessoalmente…
Era porque ele queria olhar nos olhos quando acabasse.
— Entendido, chefe.
Antônio desligou.
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Eloise parou de caminhar.
— Márcia… — ela sussurrou — eu ouvi algo.
Márcia congelou também.
Folhas. Passos. Pesados. Compassados.
Não era animal.
Era gente.
— Tem alguém vindo — Márcia disse, a voz baixa, sem tremor… mas com medo.
Eloise segurou o braço dela.
— Não podemos acompanhar o rio. Eles vão nos cercar na ponte. Precisamos mudar de estratégia, vamos pela aquela trilha.
Márcia olhou. A trilha era fina, subia. Cheia de espinhos e raízes.
Mas era o único caminho que não levava direto para a emboscada.
— Vamos. — disse Márcia.
Elas subiram.
O vento empurrava seu cabelo para trás.
A mata balançou.
Folhas se abriram.
Passos surgiram.
Primeiro o capanga.
Arma em punho.
Sorriso cortado no rosto.
— Aí estão meu ponte de ouro.
Eloise puxou Márcia para trás, instinto puro.
— Nem mais um passo. — Eloise disse, voz rouca, mas firme.
O capanga riu.
— Você acha mesmo que tem alguma escolha aqui?
Ele deu um passo.
E então…
Outro som.
Mais passos.
Mais pesados.
— Achou que ia fugir? — a voz dele veio lenta.
— Lucas não está aqui pra te proteger.
Ele não olhou para Márcia quando disse isso.
Ele olhava só para Eloise.
Márcia deu um passo à frente, mesmo com a arma atrás dela.
— Antônio… ela não tem nada a ver com isso.
— Ela só sabe que você é pai do Lorenzo.
— Deixa ela ir. Por favor.
— Se você quiser machucar alguém — ela disse — machuque a mim.
Antônio finalmente olhou para Márcia.
Ele se aproximou.
Devagar.
Até ficar tão perto que Márcia podia sentir o hálito dele.
Os olhos dele não piscaram.
Nem tremeram.
Nem sentiram
Antônio pegou o queixo dela com a mão — firme, sem violência exagerada, mas firme o suficiente para controlar.
— Márcia… — disse, quase afetuoso demais para ser real.
— Você sempre teve esse defeito. Complica o que é simples.
Márcia engoliu seco.
Mas não recuou.
Ele virou o rosto para Eloise.
— Ela é importante para os Monteiro. — afirmou.
— Então… é importante para mim.
Márcia sentiu o sangue gelar.
Eloise sentiu o mundo se estreitar a um ponto.
Antônio sorriu.
Um sorriso vazio.
Sem ódio.
Sem alma.
— Vamos… — Antônio disse, sem pressa, como quem conduz um jogo. — Ainda temos muito a resolver.
Ele tirou o celular do bolso.
Olhou para Márcia.
E colocou o aparelho na mão dela.
— Liga pra ele. — a voz saiu baixa, mas cortante. — José precisa participar da festa.
Márcia ficou imóvel.
Olhos parados.
Respiração curta.
Antônio inclinou a cabeça, como quem observa um animal que não entendeu a ordem.
— Eu não vou repetir. — disse, devagar. — Liga. Agora.
Ele então envolveu o braço no de Eloise e a puxou para trás, em direção ao precipício.
O vento subiu, frio, empurrando o cabelo dela para trás.
O chão era só pedra.
E um passo adiante era queda.
— Ou ela cai… — Antônio murmurou, olhando Márcia nos olhos. — Você decide, querida.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...