As batidas na porta vieram antes do sol.
Três. Secas. Frias. Precisas.
Valentina abriu os olhos devagar. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, o relógio na mesa marcava 6h15.
A cabeça latejava. Tinha dormido pouco ou nada.
— Senhora Montenegro, abra a porta. — a voz de Clara atravessou a madeira, sem emoção. — E, por favor, não a trave novamente.
Valentina respirou fundo antes de girar a maçaneta.
Clara estava lá: impecável, o mesmo coque puxado, o mesmo rosto sem traço de vida.
— Ainda é cedo pro café. — disse Valentina, rouca.
Clara passou por ela sem pedir licença, como quem entra num escritório, não num quarto.
O perfume caro tomou o ar.
— A senhora Montenegro mandou que se arrumasse. — informou, abrindo o closet. — Há um chá com algumas senhoras influentes no Jóquei Clube.
Valentina olhou o relógio.
— Isso é daqui a duas horas.
— Então não desperdice tempo. — respondeu Clara, enquanto separava cabides.
Ela tirou um papel dobrado do bolso do blazer e o estendeu.
— Leia.
Valentina pegou o papel.
— O que é isso?
— Respostas. — disse, simplesmente. — As perguntas mais prováveis.
Os olhos dela desceram pelas linhas datilografadas:
" Onde se conheceram: numa festa em Madri, durante um evento de investimentos.
Quem tomou a iniciativa: o senhor Montenegro.
Quem deu o primeiro beijo: o senhor Montenegro."
Valentina soltou o ar devagar.
— Até isso tem que ser ensaiado.
— Sim. — respondeu Clara, sem olhar. — O cliente precisa de veracidade. E aqui, veracidade se compra com coerência.
Valentina bufou, dobrando o papel com força.
— Ridículo.
Clara continuou organizando roupas, impassível.
— O ridículo é errar as respostas diante das pessoas. Decore. E vá tomar banho. Tem vinte minutos pra se arrumar.
— São seis e vinte. — disse Valentina, olhando o relógio. — Tenho mais de uma hora.
Clara virou-se, o olhar frio.
— Agora tem dezenove.
O silêncio que veio depois foi quase físico.
Valentina pegou a toalha e foi para o banheiro.
A água caiu forte, quente, mas não aliviou nada.
No espelho embaçado, o próprio reflexo parecia se dissolver.
Lá fora, Clara batia os saltos no chão de mármore, impaciente um metrônomo de obediência.
Valentina vestiu o que ela havia deixado sobre a cama: o mesmo bege de sempre, o mesmo corte, a mesma ausência de cor.
Quando saiu, Clara já esperava com uma pasta na mão.
— O motorista está pronto. — disse, conferindo o relógio. — Não se atrase.
Valentina pegou a bolsa.
O papel com as respostas ainda estava dentro dela.
Dobrado, amassado mas ali.
O carro seguiu pelas ruas de São Paulo em silêncio.
Pelas janelas escuras, Valentina via a cidade acordando: crianças indo pra escola, mulheres com café nas mãos, o mundo comum que agora parecia um planeta distante.
No banco da frente, Clara digitava no celular.
Cada toque era um lembrete: nada ali era dela.
Quando chegaram ao Jóquei Clube, o portão de ferro se abriu com o som metálico da riqueza.
Carros caros, jardins perfeitos, risadas controladas.
Vittória já as esperava na entrada, cercada por três mulheres de vestidos caros e olhos afiados.


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