O escritório de Vittória estava em silêncio havia tempo demais.
Ela permanecia sentada atrás da mesa, o olhar fixo em um ponto inexistente da parede, como se ainda sentisse o impacto do tapa ecoando por dentro. O rosto já não ardia. A humilhação, sim. Aquela não passava com gelo nem maquiagem.
Os dedos tamborilavam devagar sobre a madeira polida.
Controle. Ela precisava recuperar o controle.
A porta foi aberta com cuidado.
— Senhora… — Clara disse, entrando com passos medidos. — A senhora pediu para que eu relatasse qualquer coisa… fora do lugar.
Vittória não se virou.
— Fale. — respondeu, baixa.
Clara engoliu em seco.
— Hoje de manhã… — começou — …vi a senhora Valentina saindo do quarto do senhor Rafael.
O ar mudou.
Vittória fechou os olhos por um segundo.
— Continue. — disse, agora sem suavidade alguma.
— Ela saiu cedo. Descalça. — Clara prosseguiu. — Não me viu. Depois… quando o senhor saiu para o trabalho… — hesitou — …havia vestígios dela na cama.
Silêncio.
Denso. Pesado. Perigoso.
— Vestígios? — Vittória repetiu.
— O perfume. — Clara respondeu. — Não era o dele.
A mão de Vittória fechou-se em punho.
— Maldita… — murmurou. — Maldita.
Levantou-se de uma vez, a cadeira arrastando para trás com força. Caminhou até a janela, mas não olhou para fora. Não precisava ver nada. Já tinha visto demais.
— Eu avisei. — disse, para ninguém em especial. — Avisei para não cruzar limites.
Clara permaneceu imóvel.
— Ela está se sentindo segura. — Vittória continuou. — Acreditando que pode ocupar espaços que não são dela.
Virou-se lentamente.
O olhar que encontrou Clara não era de fúria descontrolada. Era pior. Era decisão.
— Faça contato. — ordenou. — Quero olhos sobre eles durante toda a viagem.
Clara sentiu um arrepio. — Senhora…?
Vittória se aproximou da mesa e apoiou as duas mãos sobre a superfície, inclinando-se levemente para frente.
— Quero que fiquem de olho neles. — disse, cada palavra calculada. — Assim que o contrato for fechado…
Fez uma pausa curta. Precisa.
— …não quero que Valentina retorne viva de lá.
A frase caiu sem esforço. Sem tremor. Sem pressa.
Clara sentiu o sangue gelar.
— Sim, senhora. — respondeu, automaticamente.
Vittória endireitou-se. Ajustou o blazer. O rosto já estava novamente impecável.
— Não agora. — acrescentou. — Nada antes da assinatura.
Sorriu de lado.
— Eu sei esperar.
Clara assentiu e saiu do escritório com passos contidos, o coração batendo rápido demais.
Sozinha, Vittória voltou a sentar-se.
Pegou a xícara de café que havia esfriado. Deu um gole. Fez uma careta leve.
— Augusto acha que me calou. — murmurou. — Rafael acha que me controla.
O sorriso que surgiu, dessa vez, não tinha pressa alguma.
— Eles sempre esquecem… — disse, olhando para o vazio — …que sou eu quem decide quem volta para casa.
Valentina ainda estava sentada na cama quando o telefone vibrou.
— Alô?
Em uma pausa para café, sentaram-se lado a lado, cercadas por sacolas e um clima estranho de normalidade.
— Você está diferente. — Bianca disse de repente.
Valentina inclinou a cabeça. — Diferente como?
— Mais… presente. — respondeu. — Não feliz. Mas viva.
Valentina pensou por um instante. — Acho que sobreviver muda a forma como a gente ocupa o espaço. — disse, baixa.
Bianca segurou a mão dela por cima da mesa. — Você não está sozinha, Val. Nunca esteve.
Valentina sorriu. — Eu sei.
Bianca observou Valentina por alguns segundos em silêncio, como quem avalia mais do que roupas.
— Você percebeu seus olhos? — disse de repente.
Valentina piscou. — Meus olhos?
— Estão diferentes. — Bianca inclinou a cabeça. — Mais vivos. Não vou deixar isso passar despercebido.
Fez um gesto para a atendente que aguardava a poucos passos. — Minha querida, traga champanhe. Do melhor. Hoje a conta é do senhor Rafael Montenegro.
Valentina riu, levando a mão à testa. — Bianca, isso é exagero.
— Não é. — ela respondeu, firme. — Exagero é desperdiçar momento raro.
Depois olhou de novo para Valentina, avaliando-a como uma joia bruta.
— E você precisa de preciosidades à altura disso tudo.
A atendente voltou com a garrafa. Bianca nem esperou servir direito. — Agora vamos às joias. — decretou. — Exclusivas. Nada que qualquer pessoa possa comprar.
— Joias? — Valentina arregalou os olhos.
— Sim. — Bianca sorriu, satisfeita. — Olha pra você. Sua imagem pede isso. Não por vaidade… mas por presença.
Ergueu a taça. — Algumas mulheres usam roupas. Outras… usam símbolos.
Valentina ergueu a dela também, ainda meio incrédula. — Você leva isso muito a sério.
— Levo você a sério. — Bianca corrigiu.
Brindaram.

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