O aeroporto ainda não estava cheio, mas já tinha aquele movimento contínuo de despedidas contidas, abraços apressados e silêncios longos demais para serem confortáveis. Um lugar onde ninguém ficava parado por muito tempo — exceto quem precisava sentir antes de ir.
Valentina caminhava ao lado de Rafael, o passaporte firme na mão, a bolsa presa ao antebraço. O coração batia em um ritmo estranho: não era ansiedade, nem medo. Era consciência. Aquela sensação incômoda de que, ao atravessar aquele portão, alguma coisa ficaria para trás.
— Você está muito quieta — Rafael comentou, baixo, sem olhar diretamente para ela.
— Estou observando — respondeu. — Sempre achei curioso como aeroportos parecem neutros… mas nunca são.
Ele a encarou por um segundo, como se quisesse responder algo mais profundo, mas desistiu. Apenas assentiu.
Foi Bianca quem quebrou o clima.
— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ VAI EMBORA ASSIM — disse, surgindo praticamente do nada, os olhos já marejados, o casaco jogado sobre o braço e uma bolsa enorme pendurada no ombro. — Sem drama, sem cena, sem nem fingir que vai desistir na última hora!
Valentina abriu um sorriso que veio fácil demais.
— Bianca… — começou.
— Não. — Bianca levantou a mão. — Hoje eu vou chorar, reclamar, fazer chantagem emocional e depois fingir que está tudo bem. Me respeita.
Lucas apareceu logo atrás, mãos nos bolsos, expressão tranquila demais para quem sabia exatamente o que estava acontecendo.
— Ela está assim desde que acordou — comentou. — Chorou porque você foi, chorou porque não foi ela, chorou porque o café esfriou.
— Cala a boca, Lucas. — Bianca rebateu sem virar o rosto. — Pessoas sensíveis choram.
Valentina riu e abraçou Bianca com cuidado, sentindo o corpo da amiga estremecer de leve.
— Eu vou e volto — disse, firme. — Não é um adeus.
— Todo mundo diz isso. — Bianca murmurou, a voz abafada no ombro dela. — Mas dessa vez você promete.
— Prometo.
Bianca se afastou, enxugando os olhos rápido, como se não quisesse dar espetáculo.
— Eu queria ir. — confessou. — Queria mesmo. Mas tenho reunião com minha avó, aquela mulher manda mais que qualquer conselho administrativo… e eu sinto falta do laboratório.
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— Sente falta nada.
— Sinto sim.
— Do quê? — ele provocou. — De tubos, reagentes e soluções instáveis?
Bianca virou-se para ele com um meio sorriso venenoso.
— Melhor do que ver seu rosto todo dia.
Lucas riu, descruzando os braços.
— Engraçado você dizer isso… — inclinou a cabeça, aproximando-se um pouco. — Porque nunca vi alguém reclamar tanto enquanto olha pra um rosto tão bonito.
Bianca abriu a boca para responder, fechou, bufou e desviou o olhar.
— Idiota.
Valentina observava a cena com carinho. Aquela troca rápida, quase automática, cheia de farpas que escondiam conforto. Uma normalidade que, naquele momento, parecia um privilégio.
— Vocês dois são impossíveis — comentou.
— E você vai sentir falta. — Bianca respondeu. — Não adianta negar.
O aviso de embarque ecoou pelo alto-falante.
Valentina respirou fundo.
Era isso.
Rafael deu um passo à frente, respeitoso, deixando que elas tivessem o tempo delas. Moreira observava a poucos metros, discreto como sempre, atento a tudo sem parecer presente.
Bianca segurou o rosto de Valentina entre as mãos.
— Escuta. — disse, séria agora. — Seja quem você é. Não quem esperam que você seja.
Valentina assentiu.
— Eu sei.
— E se alguma coisa parecer errada… — Bianca completou — …você liga. Mesmo que seja de madrugada. Mesmo que seja só pra xingar alguém.
Valentina sorriu, sentindo os olhos arderem.
— Vou ligar.
Lucas se aproximou, estendendo a mão.
— Boa viagem, Valentina.
Ela apertou a mão dele.
— Cuida dela. — pediu.
— Sempre. — respondeu, sem brincadeira dessa vez.
Valentina então virou-se para Rafael.
Ele sustentou o olhar dela por um segundo mais longo que o necessário.
— Pronta? — perguntou.
Ela olhou uma última vez para Bianca, que já limpava outra lágrima com raiva de si mesma.
— Pronta.
A porta da cabine executiva premium se fechou com um som suave, quase respeitoso. Não houve anúncio grandioso, nem pressa. Apenas aquele clique discreto que separava o mundo que ficava para trás do espaço suspenso onde o tempo obedecia outras regras.
Valentina parou por um instante.
Não porque estivesse com medo.
Mas porque nunca tinha estado ali.
— Isso… — murmurou — …é um quarto?
Rafael virou o rosto lentamente, observando a reação dela como quem avalia algo raro sem interferir.
— Cabine individual. — respondeu. — Pode fechar a porta se quiser.
Valentina girou sobre si mesma, os olhos percorrendo o espaço: a poltrona larga que virava cama, a iluminação suave, a mesinha lateral com acabamento impecável, a tela discreta, o espaço… todo aquele espaço.
— Eu achei que executiva era só um assento maior. — disse, sincera. — Isso aqui parece um hotel que decidiu voar.
Um canto da boca de Rafael se moveu. Não chegou a ser um sorriso. Mas passou muito perto.
— Você nunca viajou assim? — perguntou.
— Não. — ela respondeu, rindo baixo. — Minha ideia de luxo era conseguir esticar as pernas sem brigar com o encosto da frente.
Ele assentiu, como se aquela informação se encaixasse em algo que já sabia — ou desconfiava.
Moreira acomodou-se algumas fileiras à frente, mantendo a distância profissional necessária para ser presença sem ser invasão.


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