O Japão não os recebeu com pressa. O desembarque em Tóquio aconteceu com a precisão silenciosa que só o Japão parecia dominar. Nada de empurra-empurra, nada de vozes elevadas. Pessoas se moviam como se cada passo tivesse sido previamente calculado — e, de certa forma, tinha.
Valentina percebeu isso antes mesmo de colocar os pés no solo.
— É diferente… — murmurou, instintivamente, enquanto caminhava ao lado de Rafael pelo finger.
— Aqui tudo é — respondeu ele, baixo. — Inclusive o poder.
Ela não comentou, mas sentiu.
O ar parecia mais limpo. Não no sentido literal, mas no simbólico. Como se ali o excesso fosse indelicado e o silêncio, uma forma de autoridade.
Moreira caminhava alguns passos atrás, atento, já com o telefone na mão. Assim que atravessaram o portão de desembarque internacional, ele se aproximou.
— Senhor — disse, contido —, fomos informados de uma mudança.
Rafael inclinou levemente a cabeça, sinal para continuar.
— O senhor Yamamoto não poderá vir recepcioná-los. Houve uma reunião de emergência envolvendo a divisão de tecnologia quântica.
Fez uma pausa curta.
— As senhoras Yamamoto, Akemi e Hana, estarão aqui. E também fomos informados de que ficaremos hospedados… na residência da família.
Valentina soltou o ar devagar.
— Melhor assim… — comentou, sem perceber que falava em voz alta.
Rafael virou o rosto para ela.
— Melhor?
— Aquele homem me dá medo. — disse, com franqueza quase inocente.
Por um segundo, algo muito próximo de um sorriso cruzou o rosto de Rafael.
Moreira pigarreou, contido.
— Senhor Yamamoto carrega meio nordeste asiático nas costas, senhora. — disse, com respeito absoluto. — Um homem com esse nível de poder… precisa dar medo.
Valentina pensou por alguns segundos antes de responder.
— Talvez. — disse, por fim. — Mas homens assim também perdem muita coisa no caminho.
Olhou à frente, onde funcionários aguardavam alinhados.
— Liberdade. Amor. Leveza. Eu admiro homens que gostam de dinheiro… mas também sinto pena. Ter tanto e, no fim da vida, contar apenas com o vazio.
Rafael diminuiu o passo por um segundo.
Mas não parou.
Seguiram por um corredor reservado, longe do fluxo principal. Uma sala privativa os aguardava — ampla, minimalista, com paredes claras e mobiliário discreto. Tudo ali parecia caro sem precisar provar nada.
Akemi estava impecável como sempre — postura serena, elegância contida, o tipo de presença que não precisava se impor. Hana, ao lado dela, tinha o sorriso mais aberto, os olhos atentos demais para passar despercebida.
Rafael foi o primeiro a se aproximar.
— Senhora Yamamoto. — cumprimentou, com respeito absoluto. — Senhorita Hana. É um prazer revê-las.
Akemi inclinou levemente a cabeça.
— Senhor Montenegro. — respondeu. — A satisfação é nossa.
Hana sorriu, observando os dois, antes de voltar a atenção para Valentina.
— Valentina… — disse, aproximando-se. — Que bom vê-la novamente.
— Senhora Yamamoto, o prazer é meu. — Valentina respondeu, com naturalidade. — Fico feliz em revê-las.
Hana não resistiu à informalidade e a envolveu num abraço breve, espontâneo, quebrando a rigidez do ambiente.
— Você está ainda mais bela desde a última vez que nos vimos. — comentou, avaliando-a com humor. — Preciso saber o nome desse creme milagroso.
Valentina riu, leve.
— Segredo de Estado. — respondeu. — Mas posso abrir exceção se você me contar como vocês conseguem ter essa pele perfeita.
Hana abriu um sorriso cúmplice.
Akemi observava a troca em silêncio, atenta.
— É muito bom revê-las. — Valentina acrescentou. — Os últimos meses passaram rápido demais.
— Passaram mesmo. — Akemi concordou. —
Akemi fez um gesto discreto com a mão.
— Os carros estão prontos. — informou. — A residência não fica longe.
Hana se aproximou de Valentina, com um sorriso leve.
— Espero que não estejam exaustos. — disse. — O fuso costuma cobrar seu preço.
Valentina inclinou levemente a cabeça.
— Ainda estou tentando convencer meu corpo de que é dia. — respondeu, com humor contido.
Hana riu, satisfeita.
Rafael observava em silêncio, atento à dinâmica, ao espaço, às sutilezas que não apareciam em contratos.
— Então vamos. — disse, por fim.
Não foi pressa.
Foi comando calmo.
A comitiva se reorganizou com naturalidade, como se cada movimento já estivesse previsto. Em poucos minutos, seguiram pelo corredor reservado em direção à saída privativa.
Os portões se abriram sem ruído.
Não foi um ranger metálico, nem o aviso de sensores. Foi um deslizamento suave, preciso, quase cerimonial — como se a casa tivesse decidido aceitá-los.
O carro avançou lentamente pela alameda extensa, ladeada por árvores perfeitamente podadas, lanternas de pedra e caminhos que pareciam levar a lugares que Valentina não conseguiria memorizar nem em um mês inteiro.
Ela encostou o rosto no vidro por instinto.
Não era apenas grande.

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