Valentina fechou a porta atrás de si com cuidado, como se qualquer som mais alto pudesse acordar a própria casa. O ambiente era amplo, elegante, com uma mistura quase hipnótica de tradição e modernidade: paredes de madeira escura, iluminação indireta embutida no teto, painéis deslizantes que davam acesso a um jardim interno e, ao centro, uma cama.
Uma cama enorme.
Grande demais para ser ignorada.
Impossível demais para fingir que não existia.
Valentina deu dois passos para dentro e parou.
Piscou uma vez.
Piscou duas.
Abriu a boca.
Fechou.
— Não… — murmurou para si mesma.
Olhou ao redor em busca de qualquer coisa que contradissesse aquilo. Um sofá-cama. Uma segunda porta. Um erro de interpretação. Mas não havia. O quarto era claramente um quarto de casal. Elegante, sofisticado… e inegavelmente pensado para duas pessoas que dividiam mais do que espaço.
— Droga… — sussurrou.
Até ali, tudo bem. Viagem. Casa gigantesca. Poder japonês em estado puro.
Mas aquilo?
Aquilo significava dias.
Semanas.
Dormindo juntos.
Ela passou a mão pelos cabelos, o coração acelerando um pouco mais do que gostaria de admitir.
— Claro… — murmurou, irônica. — Porque por que não?
A porta se abriu novamente.
Valentina se virou no mesmo instante.
Rafael entrou com a mesma postura controlada de sempre, o paletó já pendurado no braço, a expressão neutra demais para alguém que claramente também tinha notado a configuração do quarto.
Os olhos dele passaram pelo espaço uma única vez.
Foi o suficiente.
— Eu… — Valentina começou, mas parou. Respirou fundo e foi direto ao ponto:
— Eu esqueci que teríamos que dormir juntos.
Rafael fechou a porta com calma. Cruzou os braços, encostando-se levemente à parede.
— E isso é ruim? — perguntou.
A pergunta veio simples demais.
Direta demais.
Valentina o encarou por um segundo. E, contra a própria vontade, a lembrança veio.
O clube.
O álcool.
O peso do corpo dele.
A respiração pesada.
Aquela noite confusa em que ele dormiu rápido demais para qualquer coisa — mas perto o suficiente para bagunçar tudo dentro dela.
— Não é isso… — respondeu, desviando o olhar. — Mas… eu fico com o sofá. Você com a cama.
Rafael franziu o cenho.
Não soube dizer exatamente por quê, mas algo naquela frase o irritou.
— Não. — respondeu, seco.
Ela voltou o olhar para ele.
— Como assim, não?
— Não há sofá. — disse. — E mesmo que houvesse, isso seria imprudente.
— Imprudente é dividir uma cama. — rebateu.
Rafael descruzou os braços, dando dois passos à frente.
— Imprudente é sermos vistos dormindo separados. — respondeu, firme. — Estamos na casa de um homem que observa tudo. Aparências aqui não são opcionais.
Valentina engoliu em seco.
— A cama é grande. — ele continuou. — Não vamos ultrapassar nenhum limite.
Fez uma pausa curta. Precisa.
— E, francamente, senhora Montenegro… você não faz o meu estilo. E eu não faço o seu.
A frase veio limpa. Controlada.
E, ainda assim, doeu mais do que ela esperava.
— Então não há motivo para preocupação. — concluiu.
Antes que Valentina pudesse responder, Rafael pegou uma muda de roupa e seguiu em direção ao banheiro.
A porta se fechou.
Valentina ficou parada no meio do quarto.
Piscando.
Abrindo e fechando a boca como um peixe fora d’água.
— Você não faz o meu tipo… — murmurou, incrédula.
Repetiu, mais baixo:
— Você não faz o meu tipo…
Bufou.
— Como se um homem como Rafael Montenegro tivesse tipo. — resmungou. — Deve gostar daquelas mulheres chatas, geladas, que combinam com o terno e não fazem perguntas.
A porta do banheiro se abriu.
Valentina deu um pulo tão rápido que quase tropeçou no próprio pé.
Rafael saiu vestindo um pijama confortável, simples, mas absurdamente bem cortado. O cabelo estava um pouco bagunçado pela água. Relaxado demais para alguém que acabara de declarar desinteresse.
Ela desviou o olhar.
E só então percebeu.
As malas.
Todas abertas.
Todas organizadas.
Roupas já dobradas. Sapatos alinhados. Até os produtos de higiene estavam dispostos com precisão cirúrgica.
— As empregadas daqui são mais eficiente que às da mansão — murmurou.
Rafael não disse nada. Apenas se sentou à beira da cama, mexendo no celular com tranquilidade excessiva.
Valentina entrou no banheiro.
O vapor do banho ajudou a acalmar os pensamentos — um pouco. Quando saiu, sua roupa já estava separada sobre a bancada.
Uma camisola preta. Fina. Elegante.
Escolhida por Bianca.
Valentina fechou os olhos por um segundo.
— Droga… — sussurrou. — Eu devia ter pensado nessa possibilidade.
Vestiu a camisola, encarando o próprio reflexo.
— Bianca… — murmurou. — Por que eu deixei você comprar minhas roupas?
Pegou o roupão e praticamente se enrolou inteira, como se pudesse desaparecer ali dentro. Saiu do banheiro com passos cuidadosos.
Rafael levantou o olhar por um segundo.
Nada disse.
Mas viu.
Valentina atravessou o quarto em linha reta e deitou-se na cama do lado oposto, rígida como uma tábua. Braços colados ao corpo. Olhar fixo no teto.
Rafael apagou a luz principal. Fechou as cortinas.
Deitou-se do outro lado.
O silêncio se instalou.
O fuso horário pesava. O corpo pedia descanso. A mente ainda resistia, mas não por muito tempo.
Aos poucos, a respiração dela ficou mais lenta.
A dele também.
Rafael acordou antes.

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