Rafael entrou no quarto sem fazer ruído.
A casa Yamamoto tinha essa estranha capacidade de engolir passos, sons, intenções. Tudo ali parecia existir em estado de observação constante — até o silêncio.
Ele fechou a porta com cuidado, mais por hábito do que por necessidade, e caminhou alguns passos para dentro.
Parou.
Valentina dormia.
O corpo estava virado de lado, parcialmente encolhido, os cabelos espalhados pelo travesseiro, a respiração lenta, profunda. O rosto relaxado, distante de qualquer tensão do dia — como se o mundo tivesse sido desligado com um botão invisível.
Mas não foi ela que prendeu sua atenção.
Foi o muro.
Almofadas. Várias. Empilhadas com precisão quase militar no meio da cama, formando uma divisória clara, inequívoca, impossível de ignorar.
Rafael piscou uma vez.
Depois outra.
Avaliou a cena como avaliava tudo: em silêncio, sem reação imediata.
Então… algo aconteceu.
O canto de sua boca se moveu.
Não foi um sorriso aberto. Não foi algo que ele permitiria em público. Mas existiu.
Um sorriso breve. Quase involuntário. Um reconhecimento silencioso daquela tentativa absurda — e extremamente Valentina — de impor ordem onde não havia controle real.
— Claro… — pensou, sem palavras. — Um muro.
Por um instante, aquilo o divertiu.
Ela havia pensado nisso. Planejado. Executado.
Era ridículo. E, ao mesmo tempo, estranhamente… cuidadoso.
O sorriso morreu tão rápido quanto surgiu.
Sem aviso, algo se fechou dentro dele.
O olhar de Rafael endureceu.
A diversão deu lugar a uma irritação seca, sem nome, sem causa aparente.
Por que aquilo o incomodava?
Era exatamente o que tinham combinado. Limites. Distância. Controle.
Ela só estava… reforçando o acordo.
Ainda assim, havia algo errado naquela imagem.
Não nela. Nele.
Rafael respirou fundo, o maxilar travando levemente.
— Idiotice. — pensou.
Desviou o olhar da cama e seguiu para o banheiro.
Fechou a porta com mais força do que pretendia.
A água fria no rosto não ajudou. Trocar de roupa tampouco.
Vestiu um pijama simples, automático, como quem executa tarefas enquanto a mente insiste em outro lugar. O reflexo no espelho devolveu-lhe um homem com o mesmo controle de sempre — postura firme, expressão neutra.
Mas os olhos estavam diferentes.
Apagou a luz do banheiro e voltou para o quarto.
A cena não tinha mudado.
Valentina continuava dormindo. O muro continuava ali. Inabalável. Ridiculamente eficiente.
Rafael caminhou até o seu lado da cama.
Deitou-se.
O colchão afundou levemente sob o peso do corpo dele, mas a barreira permaneceu intacta. Nenhuma almofada cedeu. Nenhuma invadiu o espaço do outro.
Separação perfeita.
Ele ficou de costas para ela, os olhos abertos no escuro.
O teto parecia distante demais.
O silêncio, pesado demais.
Não era desejo. Não era raiva. Não era exatamente frustração — mas chegava perto.
Era a sensação incômoda de algo fora do lugar.
De algo que deveria estar funcionando… mas não estava.
Rafael fechou os olhos com força.
— Amanhã passa. — pensou.
Mas não passou.
O sono veio tarde. E quando veio, não trouxe descanso.
Rafael adormeceu com o corpo rígido, a mente inquieta e uma irritação sem nome atravessando o peito —
frustrado sem saber por quê.
Do outro lado do muro, Valentina dormia tranquila.
Valentina acordou devagar.
Não houve susto imediato.
Nem consciência.
Havia apenas… conforto.
Calor. Firmeza. Algo sólido demais para ser travesseiro.
Ela se mexeu um pouco, ainda presa ao sonho, e murmurou quase sorrindo:
— Nossa… esse bonitão tem os peitos duros…
A mão dela deslizou devagar, curiosa, tateando o que parecia um tórax forte demais para ser imaginação. A textura era quente, viva, firme sob os dedos.
Ela sorriu no sonho.
Alisou de novo.

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