O retorno à casa Yamamoto foi silencioso. O carro deslizou pelos portões com a mesma precisão de sempre, os lanternins acesos marcando o caminho como sentinelas imóveis. Valentina observava tudo pela janela, mas já não enxergava o jardim, nem as pedras, nem a água perfeitamente controlada. Algo dentro dela tinha ficado pesado demais para apreciar beleza.
Hana se despediu com carinho genuíno.
— Obrigada pela companhia hoje, Valentina. — disse, segurando-lhe as mãos por um instante a mais do que o protocolo exigia. — Foi… especial.
Valentina sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.
— Foi mesmo. Obrigada por dividir tanto comigo.
Hana assentiu, como quem entende mais do que foi dito, e seguiu pelo corredor oposto.
Valentina caminhou até a ala reservada sentindo o peso da casa crescer a cada passo. Não era hostilidade. Era estrutura demais. História demais. Destinos decididos antes mesmo do nascimento.
Entrou no quarto.
Fechou a porta com cuidado.
E ficou parada.
Por longos segundos.
O quarto estava exatamente como havia deixado: impecável, organizado, silencioso. Um silêncio diferente do jardim. Ali não havia fluxo. Havia contenção.
Valentina sentou-se na beira da cama e ficou olhando para o nada. Não pensava em algo específico — e isso era o mais perigoso. Era quando as certezas começavam a se misturar com o medo.
O celular vibrou sobre a mesa lateral.
Ela demorou a pegar.
Quando finalmente olhou a tela, o nome piscava como um porto seguro.
Bianca.
Valentina atendeu.
— Finalmente. — Bianca disse do outro lado, sem sequer cumprimentar. — Eu já ia mandar a polícia internacional atrás de você.
Valentina soltou um riso curto, cansado.
— Desculpa… os dias aqui são intensos.
— Intenso tipo “conheci o Japão” ou intenso tipo “me perdi num dorama milionário”?
— Os dois. — Valentina respondeu, sincera.
Bianca começou a falar sem parar, como sempre. Comentou sobre ruas que Valentina precisava conhecer, restaurantes escondidos, lojas absurdamente caras que ela jamais pisaria se estivesse sozinha.
— E não esquece de comer ramen de verdade, não esses de aeroporto chique — Bianca continuou. — Ah, e eu queria tanto estar aí com você…
Valentina fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
Houve uma pausa breve do outro lado da linha. Pequena demais para ser casual.
— Tá. — Bianca disse. — Agora fala a verdade. Como você está?
Valentina não respondeu de imediato.
Levantou-se, caminhou até a janela e afastou um pouco o painel, deixando a luz suave do fim de tarde entrar.
— Cansada. — disse. — Não fisicamente. Aqui… — tocou o peito — …aqui dentro.
Bianca ficou em silêncio.
— Esse lugar é lindo. — Valentina continuou. — Mas tudo aqui parece ter sido decidido antes das pessoas existirem. Casamentos, filhos, empresas… ninguém escolhe nada de verdade.
— E você? — Bianca perguntou, com cuidado. — Você está escolhendo?
Valentina respirou fundo.
— É isso que está me assustando.
Do lado de fora do quarto, Rafael caminhava pelo corredor com passos contidos. Tinha acabado de sair de uma ligação e seguia para o quarto quando ouviu a voz dela.
Ele parou instintivamente.
— Bianca… — Valentina disse, a voz mais baixa agora. — Eu quero que esse contrato seja assinado logo.
Rafael ficou imóvel.
— Quero sair desse casamento o mais rápido possível. — ela continuou. — Eu não quero viver assim. Não quero uma vida de mentiras, de aparências, de pessoas cumprindo papéis que não escolheram.
O peito dele apertou.
— Meus pais… — Valentina engoliu em seco — …eles morreram. Mas eram felizes juntos. De verdade. Eu vi isso. Eu cresci vendo isso.
Silêncio do outro lado da linha.
— E eu não quero menos do que isso, Bia. — ela disse, firme agora. — Eu quero amor. Não um acordo. Não um contrato. Amor.
Rafael sentiu algo estranho atravessar o peito.
Não era raiva.
Não era ciúme.
Era… perda antecipada.
— E com ele? — Bianca perguntou, direta, como sempre. — Você acha que pode existir isso?

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