Valentina acordou com dificuldade para entender onde estava.
Não foi um despertar brusco.
Foi lento. Arrastado. Como se a consciência estivesse sendo puxada de volta para o corpo à força, centímetro por centímetro.
O primeiro sentido a voltar foi o som.
Vozes.
Muitas.
Graves. Rápidas. Cortadas por risadas curtas que não tinham humor nenhum. O idioma era familiar e, ao mesmo tempo, completamente inacessível. Japonês. Fluente demais. Cruel demais para ser casual.
Ela tentou se mover.
O corpo respondeu com um peso estranho, como se os músculos ainda estivessem atrasados em relação ao pensamento. A cabeça latejava. Um gosto amargo persistia na boca.
Valentina abriu os olhos.
A luz era fraca. Amarelada. Industrial.
O teto alto demais para ser um quarto. Concreto cru. Tubulações expostas. Uma lâmpada pendurada por fios aparentes, oscilando levemente, projetando sombras irregulares nas paredes.
Um galpão.
A palavra surgiu clara demais na mente.
Ela estava sentada em uma cadeira de metal, fria, desconfortável. Os pulsos presos atrás do encosto com algo que cortava a circulação sem machucar — proposital. Nada ali parecia improvisado.
Respirou fundo.
Tentou lembrar do último momento.
A rua.
As pessoas.
O celular na mão.
Bianca rindo do outro lado da tela.
E depois… o vazio.
O coração acelerou.
Valentina forçou a respiração a se manter controlada. Pânico não ajudaria. Não agora. Não ali.
Movimentou os dedos discretamente. Nada cedia.
As vozes se aproximaram.
Três homens estavam a poucos metros dela, encostados em uma mesa improvisada. Riam baixo, bebiam algo em copos plásticos. Nenhum usava máscara. Nenhum parecia preocupado em esconder o rosto.
Isso foi o primeiro sinal real de perigo.
Homens que não escondem o rosto não esperam testemunhas.
Um deles olhou para ela.
Os olhos percorreram seu corpo com curiosidade lenta, avaliadora. Não havia pressa. Não havia surpresa. Apenas posse antecipada.
Ele disse algo.
Valentina não entendeu a frase inteira — mas uma palavra atravessou o idioma como uma lâmina reconhecível.
Kirei.
Bonita.
O tom não foi elogio.
Foi comentário de mercado.
O homem falou de novo, rindo, e os outros acompanharam com um som baixo, áspero. Um deles se aproximou mais, agachando-se à frente dela, até ficarem na mesma altura.
Ele falou devagar agora, como se quisesse que ela entendesse mesmo sem compreender.
Valentina captou fragmentos soltos.
O suficiente para sentir o estômago se revirar.
A forma como ele olhava.
A maneira como a boca se curvava num sorriso sem alegria.
A ausência completa de pressa.
Ela engoliu em seco.
— I don’t understand. (Eu não entendo)— disse em inglês, a voz firme apesar do medo que começava a se infiltrar. — Where am I?(Onde eu estou?)
O homem inclinou a cabeça, fingindo pensar.
Respondeu algo em japonês.
Outro riu mais alto.
A resposta veio em inglês quebrado, carregado de sotaque e desprezo:
— You don’t need understand. (Você não precisa entender.)
Ele se levantou.
— What a waste. We could’ve had some fun before killing you.
(Que desperdício. Dava pra aproveitar antes de matar.)
Valentina sentiu um frio real percorrer a espinha.
Eles se afastaram alguns passos, retomando a conversa entre si. Falavam rápido agora. Técnicos. Objetivos. Não discutiam se algo seria feito — discutiam quando.
Foi então que a porta do galpão se abriu.
O som foi seco. Metálico. Definitivo.
As vozes cessaram imediatamente.
Não por medo.
Por respeito.
Valentina sentiu antes de ver.
A mudança no ar.
A forma como os corpos se endireitaram.
O silêncio que não era imposto — era automático.
Passos firmes ecoaram no chão de concreto.
Ela ergueu o olhar devagar.
O homem que entrou não usava pressa nem exibia força. Ele não precisava.
Alto. Bem vestido demais para aquele lugar. Terno escuro impecável, camisa clara sem uma dobra fora do lugar. O rosto calmo, traços duros, olhos atentos demais para alguém que precisava provar qualquer coisa.
Ele parou a alguns metros dela.
Observou.
Não com curiosidade vulgar.
Mas com interesse calculado.
Valentina sentiu o corpo reagir antes da mente. Um tremor involuntário percorreu seus braços. O coração bateu forte demais.
Ele sorriu.
Um sorriso lento.
Controlado.
Perigoso.
Disse algo em japonês.
Todos os outros se afastaram imediatamente.
O silêncio voltou a tomar o galpão.
O homem deu mais um passo à frente.
Valentina sentiu o ar rarear nos pulmões, como se o galpão tivesse encolhido de repente. Ele não precisava tocá-la para impor presença. Bastava existir ali, parado diante dela, como uma certeza inevitável.
E então, em inglês perfeito, disse:
— So… you’re Valentina Montenegro.
(Então… você é a tal Valentina Montenegro.)
O nome soou errado naquele lugar. Profanado. Como se algo que era dela tivesse sido arrancado da própria identidade e jogado no chão de concreto.
Valentina tentou falar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário