O tiro ainda ecoava pelo galpão. Valentina fechou os olhos no reflexo puro do instinto, o corpo inteiro se preparando para a dor que viria. O impacto. O fim. O momento exato em que tudo apagaria.
Mas a dor nunca chegou.
O segundo seguinte foi estranho demais para ser real.
Silêncio dentro dela. Um vazio desconcertante. O corpo inteiro esperando algo que não vinha.
Quando abriu os olhos, o homem à sua frente já não estava de pé.
Ele se curvava de forma errada, como se o próprio corpo tivesse esquecido como se sustentar. A expressão de controle tinha desaparecido, substituída por um espanto quase infantil. O terno caro começava a se manchar, o vermelho se espalhando de forma lenta demais para algo que havia acontecido tão rápido.
Ele caiu.
O som do corpo atingindo o concreto atravessou Valentina como um choque tardio.
O mundo pareceu girar.
Ela respirou fundo — um soluço involuntário — ainda sem entender por que continuava respirando. O coração batia rápido demais, como se estivesse tentando alcançar o tempo perdido.
Ela virou o rosto.
E então viu.
Arma erguida.
Postura firme.
O semblante fechado, concentrado, frio de um jeito que ela conhecia — mas nunca tinha visto assim.
Rafael estava ali.
De pé, alguns metros atrás dela. As pernas firmes, o braço estendido, a arma ainda apontada na direção do corpo que acabara de cair.
Por um segundo infinito, Valentina achou que estava alucinando.
Mas não estava.
O choque foi tão grande que ela nem conseguiu chamar o nome dele.
E então o caos explodiu.
— Merda! — alguém gritou em japonês.
O som de passos apressados rasgou o galpão. Vozes se sobrepondo. Ordens gritadas. O clima mudou de execução tranquila para guerra aberta em menos de um piscar de olhos.
Valentina não conseguiu acompanhar.
O cérebro ainda estava preso ao primeiro tiro. Ao corpo caído. Ao fato impossível de que aquele tiro não tinha sido nela.
Disparos ecoaram.
Não um.
Vários.
O som seco das armas explodindo atrás dela, ricocheteando no concreto, fazendo o ar vibrar. Ela se encolheu instintivamente na cadeira, o corpo reagindo antes da mente.
Rafael se moveu.
Ela viu apenas fragmentos — ele avançando, mudando de posição, gritando ordens em um idioma que ela não reconheceu no meio do caos. Outros homens surgindo pelas laterais do galpão. Sombras se movendo rápido demais.
O mundo virou ruído.
Ela sentiu algo atingir a cadeira. Um impacto seco. Depois outro. O metal vibrou. As mãos presas atrás do encosto começaram a formigar.
— Abaixa! — a voz dele surgiu, firme, atravessando tudo.
Ela obedeceu sem pensar.
Mais tiros. Um grito interrompido abruptamente. O som de alguém caindo mais longe.
Valentina fechou os olhos de novo, não por medo apenas — mas porque a realidade tinha ficado grande demais para caber dentro dela.
De repente, tudo desacelerou.
O som diminuiu.
Os passos cessaram.
Valentina abriu os olhos devagar.
Rafael estava à sua frente agora.
Próximo demais. Real demais.
Ele guardava a arma com um movimento rápido, preciso, como se aquilo fosse apenas parte de um protocolo maior. O olhar percorreu o rosto dela com urgência contida, avaliando, checando, confirmando.
Ela tentou falar.
Nada saiu.
As mãos tremiam. O corpo inteiro parecia preso entre o antes e o depois.
— Valentina. — ele disse, baixo. Firme. — Olha pra mim.
Ela conseguiu.
Os olhos dele estavam ali. Intensos. Vivos. Presentes.
— Você está segura. — afirmou, como se dissesse uma verdade que precisava existir. — Eu cheguei.
Foi aí que o corpo dela desistiu.
O alívio veio como uma onda violenta demais para ser suportada. As pernas cederam antes que ela pudesse processar qualquer coisa. A cabeça girou. O mundo perdeu foco.
Rafael a segurou antes que o corpo dela cedesse por completo.
Valentina não chegou a cair. O desmaio foi silencioso, como se o próprio corpo tivesse decidido desligar depois de suportar mais do que podia. A cabeça tombou contra o peito dele, o peso leve demais para tudo o que carregava.
— Temos ela. — alguém disse atrás.

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