Eles continuaram caminhando pelo parque.
As pessoas ainda estavam ali. Risadas soltas, passos lentos, celulares erguidos em busca do ângulo perfeito. As sakuras insistiam em cair, como se não tivessem pressa nenhuma de acabar.
Valentina sentia o corpo cansado, mas não queria ir embora.
Não daquele jeito.
Ela parou por um instante e olhou em volta outra vez. As árvores, os bancos ocupados, o chão coberto de pétalas.
— Obrigada. — disse, simples.
Rafael virou o rosto.
— Pelo quê?
Ela demorou um segundo para responder.
— Por me trazer aqui.
Ele ficou em silêncio por alguns passos.
— Você precisava ver isso. — disse, por fim.
Valentina sorriu de leve.
— Precisava mesmo.
Caminharam mais um pouco.
O vento trouxe outra leva de pétalas, algumas batendo de leve no rosto dela. Valentina levantou a mão, afastando uma do cabelo sem perceber que sorria.
— Engraçado… — murmurou.
— O quê? — Rafael perguntou.
— Eu sempre vi essas cenas em filme. — respondeu. — Achei que fosse exagero.
Ele lançou um olhar rápido para as árvores.
— Não é. — disse. — Quem vem ao Japão e não vê as sakuras… perde alguma coisa.
— Agora entendo. — ela disse.
Sentaram-se em um banco mais afastado, onde o movimento era menor. Valentina apoiou as mãos no colo, respirando fundo.
— Estou meio cansada. — comentou, sem drama.
Rafael a observou de lado.
— Quer ir embora?
Ela pensou por um instante.
— Ainda não. — respondeu. — Só… sentar um pouco.
— Tudo bem. — disse ele, sem pressa.
Ficaram ali em silêncio.
Valentina fechou os olhos por alguns segundos, sentindo o sol filtrado pelas folhas, o vento leve no rosto. Quando abriu de novo, parecia mais presente.
— É estranho… — disse baixo. — Eu achei que não fosse conseguir sair assim.
Rafael não perguntou “por quê”.
— Mas saiu. — disse apenas.
Ela assentiu.
— Saí.
O silêncio voltou. Um silêncio confortável.
Valentina virou o rosto para ele.
— Você dormiu?
Rafael arqueou levemente a sobrancelha.
— Pouco.
— Eu imaginei. — respondeu.
Ele não comentou.
Ela sorriu de canto.
— Obrigada mesmo assim.
Rafael respirou fundo, como quem aceita algo sem discutir.
— Vamos devagar. — disse. — Se quiser ir embora depois, a gente vai.
Valentina assentiu.
— Assim está bom.
Levantaram-se alguns minutos depois e voltaram a caminhar, sem rumo definido. O dia seguia do mesmo jeito, indiferente, bonito, vivo.
Então uma voz feminina atravessou o ar, clara demais para ser engano.
— Valentina?
Ela parou na mesma hora.
O corpo reagiu antes da mente.
Lucas se aproximou então, respeitando o espaço antes de falar.
— Que bom, que tudo correu bem — disse simples.
Valentina assentiu.
— É bom ver você também.
Bianca respirou fundo, tentando se recompor, e olhou ao redor pela primeira vez. As árvores, as pétalas, o movimento tranquilo das pessoas.
— Eu amo esse lugar, estava na minha lista de " lugares que você tinha que visitar antes de voltar para o Brasil".— comentou, com um sorriso torto.
Valentina seguiu o olhar dela.
— Não fui eu que decidi.
Bianca olhou para Rafael pela primeira vez com atenção de verdade.
Ele permanecia alguns passos atrás, sem invadir, sem se afastar demais. Presente. Contido.
— Entendi. — Bianca disse, sem perguntar nada.
Lucas acompanhou o gesto com o olhar e apenas assentiu, como quem registra algo e guarda.
— Vamos sentar um pouco? Bianca sugeriu, passando a mão no próprio braço. — Minhas pernas resolveram falhar agora.
Valentina sorriu.
— As minhas também.
Sentaram-se em um banco mais afastado. Bianca ficou próxima demais — ombro encostando no de Valentina, como se ainda precisasse daquele contato contínuo para acreditar que tudo ... Passou.
— Eu não vou te bombardear com perguntas. — Bianca disse. — Não hoje.
Valentina soltou o ar devagar.
— Obrigada.
— Quando quiser falar… — Bianca continuou, sem olhar direto. — Sou toda ouvidos. Como sempre fez.
Valentina assentiu.
— Vai ser meio bagunçado.
— Sempre foi. — Bianca respondeu, com um sorriso pequeno.
O silêncio que veio depois não foi pesado.
As sakuras continuavam caindo. O dia seguia em frente, sem pedir explicação a ninguém.
Valentina observou as pétalas se acumulando no chão e, pela primeira vez, não sentiu vontade de ir embora correndo.

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