O tapa ecoou pela sala.
Seco. Estalado. Definitivo.
Clara caiu para o lado, a mão indo automaticamente ao rosto antes mesmo que a dor se instalasse por completo. O gosto metálico apareceu na boca segundos depois. Ela não chorou de imediato. Ainda não.
— Sua inútil. — a voz de Vittória cortou o ar, fria, sem um único traço de descontrole.
Clara tentou se recompor, apoiando a mão no braço do sofá para se levantar. As pernas falharam. O joelho tocou o chão primeiro.
— Senhora… por favor… — a voz saiu fraca, quebrada. — Me perdoa… eu juro que fiz tudo certo. Tudo.
Vittória não respondeu de imediato.
Caminhou pela sala ampla com passos lentos, calculados. Cada salto do sapato batendo no mármore parecia marcar o tempo da humilhação. Ela parou diante da janela, puxou a cortina apenas o suficiente para deixar a luz entrar e voltou-se com algo na mão.
Um celular.
— Tudo certo? — repetiu, com desprezo. — Tudo certo seria ela morta.
Clara sentiu o estômago revirar.
— O plano… — Vittória continuou — falhou. De novo.
Ela estendeu o celular na direção de Clara e virou a tela.
A foto estava aberta.
Valentina.
Rafael.
O lago ao fundo. As sakuras desfocadas caindo. O ângulo perfeito para parecer intimidade demais. Rafael com a mão nas costas dela, inclinando-se levemente, como quem protege. Valentina sorrindo, distraída, inteira demais para alguém que deveria estar quebrada.
— Olha isso. — Vittória disse, a voz baixa, perigosa. — Olha bem.
Clara engoliu em seco.
— Ele… ele ficou o tempo todo com ela no hospital… — tentou explicar, desesperada. — O médico não deixava ninguém entrar, ele… ele não saiu do lado dela…
— EU SEI. — Vittória rosnou, perdendo a paciência pela primeira vez. — O idiota ficou com ela. Protegeu. Levou pra passear. Exibiu.
Ela jogou o celular sobre a mesa com força.
— Aquela maldita está conseguindo exatamente o que quer. — continuou. — E tudo por culpa sua.
Clara finalmente chorou.
As lágrimas vieram rápidas, desordenadas, enquanto ela se arrastava um pouco mais para frente e se ajoelhava por completo, as mãos no chão frio.
— Senhora… por favor… — a voz saiu em soluços. — Me dá mais uma chance. Só mais uma. Eu consigo. Eu prometo.
Vittória riu.
Não foi alto.
Não foi escandaloso.
Foi um riso curto, descrente.
— Oportunidade? — ela repetiu. — Você teve duas.
Ela se aproximou até ficar diante de Clara, obrigando-a a erguer o rosto.
— Duas chances de acabar com isso. — disse, olhando-a de cima. — Duas chances de me provar que não era a inútil que sempre foi.
Clara balançou a cabeça, desesperada.
— Eu posso consertar… eu posso fazer diferente… eu posso…
— Nunca. — Vittória interrompeu. — Você nunca consegue fazer nada certo.
Silêncio.
O choro de Clara ecoava baixo, patético.
— A única solução agora… — Vittória continuou, ajeitando o blazer com calma — é você sumir do mapa.
Clara arregalou os olhos.
— Não… — sussurrou. — Não, por favor… eu faço qualquer coisa… qualquer coisa…
Ela se jogou mais para frente, agarrando o salto de Vittória sem pensar.
— Eu imploro… eu não posso ficar longe… eu não posso…
Vittória afastou o pé com nojo.
— Você vai para o interior. — decretou. — Longe. Invisível. Onde ninguém te conhece. Onde ninguém te procura.
Clara sentiu o chão desaparecer sob ela.
O interior.
Longe da cidade.
Longe do dinheiro.
Longe de Rafael.
Aquilo era pior que prisão.
— Não… — ela chorou, agora em desespero real. — Qualquer coisa menos isso… eu não sobrevivo lá…
Vittória inclinou-se levemente, o rosto próximo demais.
— Sobreviver nunca foi uma prioridade sua. — disse, fria. — Sumir é.
Ela se endireitou e deu as costas.
— Arrume suas coisas hoje. — finalizou. — Amanhã você não existe mais.
Clara ficou no chão.
Dirigiu sem rumo por longos minutos, até parar em um imóvel discreto, antigo, que não constava em registros recentes. Um dos poucos lugares que Vittória não frequentava — e exatamente por isso, perigoso o bastante para servir de abrigo.
Ela largou a bolsa sobre a mesa e começou a andar de um lado para o outro, incapaz de ficar parada.
— Ela me descartou… — disse em voz alta, para ninguém. — Como se eu fosse nada.
A imagem do tapa voltou com força. A humilhação. O nojo no olhar de Vittória.
Clara riu, um riso curto, quase histérico.
— Interior… — murmurou. — Ela realmente acha que isso é pior do que morrer. Velha desgraçada.
Parou diante do espelho rachado.
— Eu não vou obedecer. — disse ao próprio reflexo.
Se Vittória queria guerra, teria.
Na mansão Montenegro, Vittória estava no seu escritório.
Sentada. Impecável. Intocada pelo caos que causara.
O celular estava novamente em sua mão.
A foto de Rafael e Valentina no lago.
— Eu já acabei com uma de suas aventuras uma vez, Rafael… — murmurou, a voz baixa, afiada. — Acabar com essa não vai ser difícil.
Ela ampliou a imagem, analisando cada detalhe com frieza clínica.
— Mesmo que eu tenha que fazer com minhas próprias mãos… — completou.
O celular vibrou.
Mensagem curta, direta:
Clara não saiu da cidade.
Vittória fechou os olhos por um segundo.
— Claro que não. — disse, quase entediada.
Um sorriso lento surgiu em seus lábios.
— Então você escolheu desobedecer. — murmurou. — Péssima decisão.
Digitou com calma, sem pressa, como quem já sabe o desfecho:
Localize-a.
Guardou o celular.
Clara acreditava estar escondida.
Mas ninguém se escondia dos Montenegros por muito tempo.

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