O quarto estava silencioso demais.
Valentina sentou-se na borda da cama, pressionando os dedos contra as têmporas enquanto o chá — agora morno — descansava sobre a mesa.
Ela já tinha tomado banho.
Já tinha trocado para a camisola.
Já tinha lido alguns capítulos do livro que encontrara no canto do quarto.
Era a primeira vez, desde o casamento, ou melhor em anos, que tinha tantas horas…
sozinha.
Intacta.
Sem Clara vigiando seus passos ou Vittoria cuspindo veneno.
Mas não havia liberdade naquilo.
Havia ausência.
Ausência de ruído.
De porta aberta.
De saída.
Ela levantou devagar e caminhou até a porta.
Girou a maçaneta.
Trancada.
Como antes.
Nenhuma surpresa.
Nenhuma expectativa frustrada.
Ela apenas soltou um suspiro irônico.
— Pelo menos aqui ninguém grita comigo. — murmurou.
Voltando ao quarto, viu a bandeja de café da manhã arrumada com precisão.
O pão fresco.
A fruta cortada.
A xícara ainda quente.
Ela sentou-se à mesa.
Cortou o mamão.
Mordeu com calma.
Leu as mensagens de Bianca no celular — dezenas delas — e até deu uma risada curta, quase um sopro de vida num ambiente tão estéril.
Mas quando terminou de comer, fez algo que não tinha feito ainda:
Foi até a gaveta da escrivaninha e tirou um calendário simples, de mesa.
Um que ela mesma tinha colocado ali no primeiro dia na mansão, numa tentativa tímida de organizar uma rotina.
Passou os dedos pela folha do mês atual.
Achou o dia.
Pegou a caneta.
E riscou um X grande, firme, decidido.
— Falta menos de onze meses. — disse, baixinho. — Eu consigo.
Não era desespero.
Não era drama.
Não era derrota.
Era contagem regressiva.
Era estratégia.
Era autopreservação.
Ela guardou o calendário no mesmo lugar e respirou fundo, como quem define um objetivo invisível.
Depois pegou o livro que tinha deixado na cama e voltou a ler, reclinada nos travesseiros.
A televisão ligada em volume baixo transmitia um programa de entrevistas qualquer — ruído branco para preencher o vazio.
Valentina cruzou as pernas, afundou mais no colchão e virou a página.
Se era para viver um cárcere, que fosse um cárcere silencioso.
Organizado.
Racional.
Ela não gritaria.
Não esmurraria a porta.
Não suplicaria.
O sol já estava descendo quando Valentina fechou o livro.
A mansão inteira estava silenciosa demais — aquele silêncio que não significa paz, e sim tempestade se formando ao longe.
Ela se levantou, caminhou até a janela e afastou a cortina com cuidado.
Lá embaixo…
— nada.
Nenhuma movimentação.
Nenhum funcionário.
Nenhuma voz.
A mansão Montenegro parecia um palácio abandonado, exceto pelo segurança que, de vez em quando, cruzava o jardim como um fantasma de terno preto.
Valentina encostou a testa no vidro frio.
Por um momento, pensou em tudo que tinha acontecido:
O tapa.
A humilhação.
O vídeo.
O homem pedindo desculpas publicamente.
O grupo comprado.
A porta trancada.
Tudo isso em menos de 24 horas.
Respirou fundo.
— Não vou quebrar. — disse a si mesma.
Ela voltou para a cama, puxou o calendário novamente e virou a página.
Passou o dedo sobre o número 12, o dia do casamento.
Há pouco mais de uma semana ela era livre.
Agora estava ali, contando dias como detenta de luxo.
Guardou o calendário.
Se sentou de pernas cruzadas, colocou o travesseiro atrás das costas e acendeu a televisão.
Uma novela qualquer.
Enredo dramático.
Gente brigando por herança.
Quase irônico demais pra ser coincidência.
Ela deu um pequeno sorriso cansado.
— Se a vida imitasse a arte, pelo menos eu teria alguém me defendendo. — murmurou.
O estômago roncou.
Ela olhou para o relógio.
Já passava das 19h.
O jantar tinha começado.

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