A manhã seguinte nasceu cinza.
Não daquele cinza preguiçoso de garoa paulista.
Mas o cinza corporativo, o cinza de vidro, concreto e poder.
O prédio do Grupo Montenegro parecia mais uma fortaleza futurista do que uma empresa.
Espelhado, imenso, silencioso — cada andar uma sentença.
Cada elevador, um julgamento.
E no último andar…
o dragão esperava.
Rafael estava sentado atrás da mesa de madeira maciça, o terno preto impecável, a gravata ligeiramente afrouxada — não por desleixo, mas porque ele não precisava parecer perfeito para intimidar.
Ele era intimidação.
A tela à sua frente mostrava dados, relatórios, projeções.
Mas ele não estava lendo nada.
O olhar estava vazio, preso no reflexo do vidro da janela — o reflexo de um homem que tinha atravessado uma noite inteira pensando em Valentina, mas nunca admitiria isso nem sob tortura.
Uma batida seca na porta.
Moreira entrou, rígido, tenso, o tipo de tensão que só aparece quando alguém muito perigoso está para cruzar um limite.
— Senhor Montenegro… — ele disse. — Ele chegou.
Rafael não se mexeu.
Nem piscou.
— Mande entrar.
Moreira engoliu seco.
— Senhor… talvez seja melhor o senhor—
— Mande entrar. — repetiu Rafael, mais frio.
E foi aí que a porta abriu.
Lento.
Controlado.
Ensaiado.
Rogério Diniz entrou como quem invade a sala de um rival, não como quem visita o marido da sobrinha.
Terno azul-marinho, gravata vinho amarrotada, cabelo penteado com gel demais.
O sorriso… aquele sorriso de cobra que acha que ninguém percebe os dentes ocultos.
— Rafael Montenegro… — disse, abrindo os braços como se fosse um reencontro simpático. — Sempre um prazer ver o homem do momento.
Rafael não levantou.
Nem sorriu.
Nem ofereceu a mão.
— Sente-se. — disse apenas.
Rogério sorriu mais.
Aquele sorriso de vendedor de carros usados.
Sentou-se na cadeira como se a empresa fosse dele.
— Imagino que esteja ocupado, claro. — começou. — Depois de ontem, a internet inteira só fala em você. “O bilionário implacável”. “O homem que derruba impérios num piscar de olhos”. “O herdeiro dos trilionários”. Impressionante.
Rafael cruzou as mãos sobre a mesa.
— Vá direto ao ponto.
Rogério deu uma risadinha forçada.
— Jovens… tão apressados.
Rafael o encarou como quem olha para um inseto tentando filosofar.
Rogério ajeitou a gravata, inclinou-se na cadeira e adotou aquele tom paternalista que homens covardes usam quando querem parecer importantes.
— Eu pedi essa reunião… porque acho que precisamos conversar sobre Valentina.
O nome dela no ar fez algo mudar nos olhos de Rafael.
Foi rápido.
Uma fagulha.
Quase imperceptível.
Mas Rogério viu.
Ele sorriu como quem descobre uma fraqueza.
— Sobrinha complicada, não é? — disse. — Tão cheia de… personalidade. Sempre tão empenhada em ser moralmente correta, tão… emotiva. Uma pena que não tenha herdado o pragmatismo do pai.
Rafael continuou imóvel.
Mas o ar ao redor dele… ficou mais pesado.
— Continue. — disse.
Rogério abriu a pasta que trazia consigo.
Pousou alguns papéis sobre a mesa.
Sem empurrá-los. Sem oferecer.
Ele apenas colocou ali, como quem j**a iscas a um predador.
— Esses são os relatórios das dívidas da família Diniz. — explicou. — Você sabe como é… a empresa faliu, os advogados desistiram, o caso é feio. Muito feio. A imagem dela está manchada. E isso pode respingar em qualquer um que esteja associado a ela.
Rafael não olhou para os papéis.
— Se quer dinheiro, diga quanto. — falou, direto.
Rogério sorriu mais amplo — e mais sujo.
— Eu sabia que você seria rápido.
Ele se inclinou, cruzou as pernas, ajeitou o relógio brilhante.



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