O hospital sempre tinha cheiro de algo entre limpeza e morte.
E naquela sala branca demais, iluminada demais, fria demais, Isabella Moretti parecia uma obra-prima de drama renascentista jogada sobre lençóis caros.
Lençóis nos quais ela se mexia com tanta delicadeza que parecia até ensaio.
A maquiagem borrada — estrategicamente borrada.
O cabelo molhado — estrategicamente desgrenhado.
Os olhos semicerrados — estrategicamente sofridos.
Vittoria Montenegro andava pelo quarto como uma leoa que perdeu o último filhote.
— Minha menina… minha pobre menina… — ela repetia, apertando um lenço no peito. — Isso foi um ataque! Um ataque planejado, Rafael!
Rafael estava de pé, parado no canto, braços cruzados, roupa ainda úmida.
Mas era o rosto dele que chamava atenção.
Aquele rosto cinza de tempestade.
— Ela quase morreu! — Vittoria insistiu. — E tudo por causa daquela… daquela… DESQUALIFICADA que você assinou como esposa!
Isabella apertou os lábios, trêmula o bastante para comover um país inteiro com um pronunciamento choroso.
— Eu só tentei me desculpar, Vicky… — sussurrou, a voz quebrada e doce como mel adulterado. — Eu achei que… eu pensei que ela estava melhor… mas… ela me empurrou… eu… eu escorreguei… eu… — fechou os olhos, delicadíssima — achei que ia morrer…
Vittoria soluçou em cima dela como uma viúva rica.
— Você é bondosa demais, Isabella! Bondosa demais! Essa garota sempre foi um erro, Rafael! Eu te avisei! Eu avisei desde o começo!
— Vittoria — Augusto tentou — a voz fraca, gasta, quase sussurro — talvez devêssemos…
Ela se virou como um chicote.
— Augusto, pelo amor de Deus, você não tem moral pra opinar nem sobre a marca do arroz, quanto mais sobre isso.
Augusto baixou a cabeça, derrotado pela humilhação pública.
O celular dele vibrou.
— Vou… atender ali fora — murmurou, desaparecendo rapidamente pela porta.
Assim que a porta fechou, Vittoria voltou a mirar Rafael como se ele fosse o único culpado pela queda de Lúcifer do céu.
— Agora responda, Rafael. — ela ordenou, dedo em riste. — O que vai fazer com aquela garota? Porque TODOS viram o vexame! A recepção inteira comentando! Minha festa, meu evento, meu nome e… — apontou Isabella — minha menina quase MORREU afogada por culpa daquela… aquela… coisa que você trouxe pra dentro de casa!
Rafael manteve o olhar fixo em Isabella.
A força contida naquele silêncio era perigosa.
Isabella percebeu e inclinou a cabeça, dócil, sofrida, perfeita.
— Rafa… por favor, não briga com ela… eu só tive medo… — tocou o peito como heroína trágica — você sabe como ela fica nervosa… eu achei que…
— Mamãe, saia — Rafael falou finalmente. A voz baixa.
Vittória olhou para o filho e para Isabella, sabia que se ficasse ali perderia tudo que estava fazendo.
— Vou pegar um café. — anunciou, deixando o quarto como quem abandona o palco para que o protagonista brilhe.
A porta bateu.
Isabella ajeitou-se nos travesseiros, com cuidado exagerado, o batom borrado de propósito, a expressão quebrada.
— Rafa… — ela chamou, suave, a voz arranhada — você… você não acredita que eu faria algo para… prejudicá-la, acredita?
Rafael não respondeu de imediato.
Ele caminhou até o lado da cama. Os olhos cinza analisando cada detalhe dela.
Isabella se encolheu ligeiramente, mas manteve o papel.
— Eu só queria conversar… — disse, com a voz ganhando um tremor estudado. — Eu tentei… eu juro… tentei fazer as pazes…
Rafael se inclinou um pouco.
— Isabella — ele disse, enfim — vamos ser claros.
Ela sorriu por um instante, achando que viria proteção.
Mas não veio.
— Se você mentir pra mim… uma única vez sequer… eu vou descobrir.
O sorriso dela morreu antes de se formar.
Rafael continuou:
— E quando eu descobrir… nada no mundo vai te proteger de mim. Nada.
Ele não precisou levantar a voz.
Não precisou tocar nela.
Aquelas palavras, ditas daquele jeito, tinham mais peso que água, mais peso que tapa, mais peso que morte.
Isabella sentiu o corpo gelar por dentro, tentou recuperar o papel:
— Rafa… eu… — a voz falhou — você acredita em mim, não acredita?
Ele não respondeu.
E a porta se abriu atrás deles.
A enfermeira entrou.
— Senhora Moretti, vamos fazer um exame rápido. O senhor pode esperar lá fora.
Rafael endireitou a postura.
Fechou o terno.
E antes de sair…
Olhou Isabella nos olhos.
— Espero que não esteja perdendo meu tempo.
E saiu.
Deixando Isabella com a sensação de que aquela noite…
não tinha terminado nem perto.
Na mansão Montenegro, Valentina não sabia quanto tempo ficou ali no chão.
Só quando o corpo finalmente desistiu de tremer foi que os olhos dela abriram devagar.
A piscina ainda tremulava ao lado, refletindo o céu como se zombasse dela.
Valentina inspirou.
O ar doeu.
A garganta arranhava.
A cabeça latejava.
O corpo inteiro pesava como se estivesse cheio de pedras.
Ela apoiou a mão no chão e, com esforço, se levantou.
O vestido encharcado pesava como um casaco de chumbo.
Cada passo era arrastado, silencioso, doído.
Ela atravessou o jardim, passou pela porta lateral e entrou na mansão.
Ninguém ali.
Nenhuma alma sequer.
Pelo corredor vazio, os pingos caíam do vestido, marcando o mármore como um rastro de alguém que não deveria sobreviver.
Ela subiu as escadas devagar.
Um degrau.
Outro.
Outro.
A respiração estava quente — quente demais.
E ao mesmo tempo o corpo gelava como se tivesse sido mergulhado em gelo.
Quando chegou ao próprio quarto, não acendeu a luz.
Não tirou o vestido.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário