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Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário romance Capítulo 27

O hospital sempre tinha cheiro de algo entre limpeza e morte.

E naquela sala branca demais, iluminada demais, fria demais, Isabella Moretti parecia uma obra-prima de drama renascentista jogada sobre lençóis caros.

Lençóis nos quais ela se mexia com tanta delicadeza que parecia até ensaio.

A maquiagem borrada — estrategicamente borrada.

O cabelo molhado — estrategicamente desgrenhado.

Os olhos semicerrados — estrategicamente sofridos.

Vittoria Montenegro andava pelo quarto como uma leoa que perdeu o último filhote.

— Minha menina… minha pobre menina… — ela repetia, apertando um lenço no peito. — Isso foi um ataque! Um ataque planejado, Rafael!

Rafael estava de pé, parado no canto, braços cruzados, roupa ainda úmida.

Mas era o rosto dele que chamava atenção.

Aquele rosto cinza de tempestade.

— Ela quase morreu! — Vittoria insistiu. — E tudo por causa daquela… daquela… DESQUALIFICADA que você assinou como esposa!

Isabella apertou os lábios, trêmula o bastante para comover um país inteiro com um pronunciamento choroso.

— Eu só tentei me desculpar, Vicky… — sussurrou, a voz quebrada e doce como mel adulterado. — Eu achei que… eu pensei que ela estava melhor… mas… ela me empurrou… eu… eu escorreguei… eu… — fechou os olhos, delicadíssima — achei que ia morrer…

Vittoria soluçou em cima dela como uma viúva rica.

— Você é bondosa demais, Isabella! Bondosa demais! Essa garota sempre foi um erro, Rafael! Eu te avisei! Eu avisei desde o começo!

— Vittoria — Augusto tentou — a voz fraca, gasta, quase sussurro — talvez devêssemos…

Ela se virou como um chicote.

— Augusto, pelo amor de Deus, você não tem moral pra opinar nem sobre a marca do arroz, quanto mais sobre isso.

Augusto baixou a cabeça, derrotado pela humilhação pública.

O celular dele vibrou.

— Vou… atender ali fora — murmurou, desaparecendo rapidamente pela porta.

Assim que a porta fechou, Vittoria voltou a mirar Rafael como se ele fosse o único culpado pela queda de Lúcifer do céu.

— Agora responda, Rafael. — ela ordenou, dedo em riste. — O que vai fazer com aquela garota? Porque TODOS viram o vexame! A recepção inteira comentando! Minha festa, meu evento, meu nome e… — apontou Isabella — minha menina quase MORREU afogada por culpa daquela… aquela… coisa que você trouxe pra dentro de casa!

Rafael manteve o olhar fixo em Isabella.

A força contida naquele silêncio era perigosa.

Isabella percebeu e inclinou a cabeça, dócil, sofrida, perfeita.

— Rafa… por favor, não briga com ela… eu só tive medo… — tocou o peito como heroína trágica — você sabe como ela fica nervosa… eu achei que…

— Mamãe, saia — Rafael falou finalmente. A voz baixa.

Vittória olhou para o filho e para Isabella, sabia que se ficasse ali perderia tudo que estava fazendo.

— Vou pegar um café. — anunciou, deixando o quarto como quem abandona o palco para que o protagonista brilhe.

A porta bateu.

Isabella ajeitou-se nos travesseiros, com cuidado exagerado, o batom borrado de propósito, a expressão quebrada.

— Rafa… — ela chamou, suave, a voz arranhada — você… você não acredita que eu faria algo para… prejudicá-la, acredita?

Rafael não respondeu de imediato.

Ele caminhou até o lado da cama. Os olhos cinza analisando cada detalhe dela.

Isabella se encolheu ligeiramente, mas manteve o papel.

— Eu só queria conversar… — disse, com a voz ganhando um tremor estudado. — Eu tentei… eu juro… tentei fazer as pazes…

Rafael se inclinou um pouco.

— Isabella — ele disse, enfim — vamos ser claros.

Ela sorriu por um instante, achando que viria proteção.

Mas não veio.

— Se você mentir pra mim… uma única vez sequer… eu vou descobrir.

O sorriso dela morreu antes de se formar.

Rafael continuou:

— E quando eu descobrir… nada no mundo vai te proteger de mim. Nada.

Ele não precisou levantar a voz.

Não precisou tocar nela.

Aquelas palavras, ditas daquele jeito, tinham mais peso que água, mais peso que tapa, mais peso que morte.

Isabella sentiu o corpo gelar por dentro, tentou recuperar o papel:

— Rafa… eu… — a voz falhou — você acredita em mim, não acredita?

Ele não respondeu.

E a porta se abriu atrás deles.

A enfermeira entrou.

— Senhora Moretti, vamos fazer um exame rápido. O senhor pode esperar lá fora.

Rafael endireitou a postura.

Fechou o terno.

E antes de sair…

Olhou Isabella nos olhos.

— Espero que não esteja perdendo meu tempo.

E saiu.

Deixando Isabella com a sensação de que aquela noite…

não tinha terminado nem perto.

Na mansão Montenegro, Valentina não sabia quanto tempo ficou ali no chão.

Só quando o corpo finalmente desistiu de tremer foi que os olhos dela abriram devagar.

A piscina ainda tremulava ao lado, refletindo o céu como se zombasse dela.

Valentina inspirou.

O ar doeu.

A garganta arranhava.

A cabeça latejava.

O corpo inteiro pesava como se estivesse cheio de pedras.

Ela apoiou a mão no chão e, com esforço, se levantou.

O vestido encharcado pesava como um casaco de chumbo.

Cada passo era arrastado, silencioso, doído.

Ela atravessou o jardim, passou pela porta lateral e entrou na mansão.

Ninguém ali.

Nenhuma alma sequer.

Pelo corredor vazio, os pingos caíam do vestido, marcando o mármore como um rastro de alguém que não deveria sobreviver.

Ela subiu as escadas devagar.

Um degrau.

Outro.

Outro.

A respiração estava quente — quente demais.

E ao mesmo tempo o corpo gelava como se tivesse sido mergulhado em gelo.

Quando chegou ao próprio quarto, não acendeu a luz.

Não tirou o vestido.

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