A sala de reuniões da Montenegro Corp estava mais fria do que o normal naquela manhã.
Não pela temperatura.
Mas pelo clima.
A tela principal ocupava quase toda a parede ao fundo, exibindo gráficos, projeções, relatórios de mercado e notícias financeiras que se acumulavam em tempo real. Linhas vermelhas. Oscilações. Comentários de analistas. Estimativas revistas. O nome da Fênix aparecia vezes demais para o gosto de todos ali.
Os diretores já estavam reunidos quando Moreira entrou primeiro, discreto como sempre, carregando uma pasta fina e um tablet. Não disse nada. Apenas ocupou seu lugar lateral, organizando os documentos sobre a mesa de vidro escuro com a precisão de quem entendia que, naquele ambiente, o silêncio dizia mais do que qualquer explicação.
Do outro lado, os membros do conselho trocavam olhares curtos e calculados.
Ninguém queria ser o primeiro a falar.
E, ao mesmo tempo, todos queriam.
Até que um deles cedeu.
— O mercado abriu nervoso — disse Álvaro Mendes, diretor financeiro, passando os dedos pela gravata como se ela apertasse demais. — Houve contenção no fim do pregão anterior, mas a recompra agressiva da Fênix no setor de tecnologia de segurança gerou instabilidade. Os investidores começaram a rever projeções.
Na tela, o gráfico da Montenegro ainda se mantinha acima dos demais. Sólido. Forte. Mas a diferença que antes parecia confortável agora era pequena o suficiente para incomodar.
— Pequena oscilação não é crise — respondeu outro diretor, tentando manter a voz firme. — Estamos falando da Montenegro. Não de uma startup inflada por especulação.
— O problema — rebateu Álvaro sem olhar para ele — é que já não parece especulação.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
Héctor Vasconcellos, diretor de operações internacionais, apoiou os cotovelos na mesa e encarou os números à frente.
— Eles compraram uma tecnologia militar por um valor obsceno e, em menos de doze horas, passaram a ser tratados como ameaça real. Isso não é ruído de mercado. É reposicionamento.
— Reposicionamento acelerado demais — acrescentou outra voz, mais seca. — Ninguém cresce dessa forma sem estrutura ou… sem proteção.
Os olhos se cruzaram.
Era sempre assim.
Ninguém dizia demais.
Mas todos insinuavam.
— O nome deles apareceu do nada — continuou Héctor. — Primeiro com tecnologia aplicada, depois expansão em segurança digital, agora isso. E o mais grave: ninguém sabe quem está por trás.
— Isso já está gerando pergunta demais fora daqui — murmurou uma conselheira do outro lado da mesa. — Bancos. Parceiros. Fundos. Todo mundo quer saber quem está conduzindo a Fênix.
Álvaro passou o tablet para o centro da mesa, girando a tela para os demais.
— Os analistas internacionais já começaram a usar a mesma expressão.
— Qual? — perguntou alguém.
Ele respirou fundo.
— “A sombra por trás da Montenegro.”
Ninguém gostou de ouvir aquilo.
A expressão pareceu se espalhar pela sala como fumaça.
— Ridículo — murmurou um dos diretores mais antigos. — A Montenegro construiu seu nome em décadas. Não vai ser ultrapassada por uma empresa que mal completou um ciclo anual.
— Ninguém falou em ultrapassar — cortou Héctor. — Ainda.
O “ainda” ficou no ar.
Nítido.
Incômodo.
E foi exatamente nesse momento que a porta se abriu.
Rafael entrou. No ritmo exato de quem sabia que não precisava correr para impor presença.
O silêncio veio antes que qualquer um decidisse ficar calado. Ele simplesmente aconteceu. Natural. Automático. Quase humilhante na facilidade com que todos os sons morreram quando ele cruzou a porta.
Terno escuro. Gravata impecável. Olhar frio.
Mais do que frio.
Lúcido.
Rafael caminhou até a cabeceira da mesa sem olhar para ninguém por tempo demais, mas vendo tudo. O peso da tensão. O desconforto escondido nas posturas rígidas. O excesso de documentos sobre a mesa. O medo disfarçado de objetividade.
Pousou uma das mãos na cadeira antes de sentar.


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