Ela franziu o cenho ao ver o nome na tela.
Andrade.
Atendeu na mesma hora.
— Senhor Andrade?
A respiração do outro lado não estava normal. Não exatamente ofegante, mas curta demais, rápida demais, como se ele estivesse andando ou olhando por cima do ombro enquanto falava.
— Senhora, estou ligando para avisar que vou mandar alguém entregar algumas coisas para a senhora.
Valentina endireitou o corpo no banco.
— Que coisas?
Houve um ruído abafado, como uma porta fechando ao longe ou alguém se movendo rápido demais perto do aparelho.
— Documentos. E mais algumas informações. Infelizmente, terei que sair do país com urgência.
O coração dela mudou de ritmo.
— O que aconteceu?
— Não posso falar agora.
A voz dele ficou ainda mais baixa.
— Espere o meu contato. Não receba ninguém sem confirmação. Entendeu?
Valentina apertou o celular com mais força.
— Andrade—
Mas a ligação caiu.
Ela ficou olhando para a tela por alguns segundos, como se o aparelho pudesse devolver mais alguma coisa além do reflexo do próprio rosto.
O carro continuava em movimento. Lá fora, a cidade era a mesma. Faróis. Gente atravessando a rua. Motoboys costurando entre os carros. O som abafado do trânsito entrando pela película escura. Tudo comum demais para combinar com o que acabara de ouvir.
Valentina desbloqueou o celular e ligou de volta.
Caixa postal.
Tentou outra vez.
Nada.
Na terceira, o telefone já foi direto para desligado.
Ela baixou lentamente a mão, ainda segurando o aparelho. O nome dele permanecia na tela da última chamada como um ponto aceso que não se apagava.
Andrade nunca teria ligado daquele jeito à toa.
Nunca.
Ele era objetivo até quando trazia notícia ruim. Não dramatizava. Não antecipava problema sem necessidade. Se tinha dito que precisava sair do país, era porque a situação ao redor dele já tinha passado da conta. E se havia algo para entregar a ela antes disso… então não era detalhe.
Era peça.
Era prova.
Ou o começo delas.
Valentina virou o rosto para a janela, mas já não via o trânsito. A mente corria em outra direção. Documentos. Informações. Urgência. Saída do país. Aquilo não se encaixava em nada pequeno. Não era um susto operacional. Não era atraso. Não era cuidado excessivo.
Era fuga.
Ela respirou fundo, contendo o impulso de ligar para Rafael naquele mesmo instante. Não porque não pudesse. Porque ainda não sabia o que diria. O investigador tinha sido claro ao pedir que ela aguardasse. E alguma coisa no tom da voz dele dizia que desobedecer aquele pedido agora podia ser mais perigoso do que o silêncio.
O motorista perguntou, pelo espelho:
— Senhora, tudo bem?
Valentina piscou, voltando.
— Sim.
A resposta saiu automática demais. Até para ela.
Ajeitou o corpo no banco, apoiando o celular sobre a perna e deixando a mão por cima dele, como se precisasse mantê-lo ali para não deixar a situação escapar junto.
Poucos minutos depois, o carro entrou pelos portões de casa. Mas a sensação que ela carregava já não ficou do lado de fora.
Ela desceu devagar, sem a leveza com que tinha saído do shopping. Maria apareceu na entrada, pronta para receber as sacolas e perguntar sobre o dia, mas bastou olhar duas vezes para o rosto dela para conter qualquer comentário mais alegre.
— Senhora?
Valentina entregou as bolsas sem perceber exatamente o que estava fazendo.
— Depois eu vejo isso.
Maria assentiu, cautelosa.
— Deseja que eu peça alguma coisa?
— Não. Obrigada.
Subiu para o quarto sem passar pelo restante da casa, o som dos próprios passos parecendo alto demais no corredor. Assim que entrou, deixou a bolsa sobre a poltrona e voltou a pegar o celular. Ligou mais uma vez para Andrade.


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