A manhã no escritório da M&K corria no ritmo habitual de sempre: telefones tocando, passos firmes no corredor, portas se abrindo e fechando, vozes contidas em reuniões que pareciam importantes demais para serem interrompidas. Valentina estava sentada à mesa, concentrada em um relatório, quando a porta se abriu sem cerimônia e Lurdes entrou segurando um envelope pardo entre os dedos, com uma expressão que oscilava entre a curiosidade e a desconfiança.
— Senhora, isso acabou de chegar. Não tem remetente, não passou por protocolo e, sinceramente, quase chamei a polícia antes de trazer.
Valentina ergueu o olhar na mesma hora. O corpo não chegou a se mover, mas alguma coisa dentro dela endureceu. Bastou um segundo para que entendesse.
— Não precisava — respondeu, estendendo a mão. — Eu sei quem mandou.
Lurdes entregou o envelope, ainda olhando para ele como se esperasse que explodisse a qualquer momento.
— Tem certeza?
— Tenho.
Lurdes hesitou só mais um instante antes de assentir.
— Tudo bem. Vou deixar a senhora em paz, então. Se precisar de alguma coisa, estou logo ali.
Valentina forçou um pequeno sorriso.
— Obrigada, Lu.
Esperou a porta se fechar, ouviu os passos de Lurdes se afastando pelo corredor e então se levantou. Foi até a entrada, girou a chave e travou a porta por dentro antes de voltar à mesa. O silêncio do escritório mudou de natureza naquele instante. Não era mais o silêncio de trabalho. Era outro. Mais atento. Mais denso.
Ela pousou o envelope sobre a mesa com cuidado, como se o simples gesto de abri-lo pudesse alterar alguma coisa ao redor. Rasgou a borda com os dedos e tirou de dentro um pen drive, uma chave pequena de metal e um papel dobrado várias vezes. O papel trazia um endereço escrito à mão. No pen drive, preso com fita, havia um bilhete curto.
Valentina retirou a fita, abriu o computador e inseriu o dispositivo. Uma única pasta apareceu na tela. Ela clicou.
O arquivo de texto abriu imediatamente.
Senhora Montenegro, encontrei um depósito dos seus pais. Foi complicado localizar porque está registrado em nome da sua avó materna. Lá dentro existem documentos importantes do grupo Diniz, e aconselho a senhora a olhar tudo com atenção. Tome cuidado, porque há olhos observando os seus passos. Em breve retornarei com mais informações. Algumas pistas não levaram a nada. Outras me conduziram até pessoas muito poderosas.
Valentina terminou de ler e ficou imóvel, os olhos presos nas últimas palavras. Pessoas muito poderosas.
Ela releu o texto uma segunda vez. Depois uma terceira. O nome da avó materna acendeu uma lembrança distante, algo quase apagado pela sucessão de tragédias, contratos, casamentos, sequestros e verdades fragmentadas que tinham preenchido o último ano da vida dela. A avó tinha sido discreta, daquelas mulheres que atravessavam a família sem alarde, quase sempre vistas e pouco lembradas. Se o depósito estava em nome dela, não era um acaso burocrático. Era esconderijo. Era proteção. Era segredo.
Valentina fechou o arquivo, retirou o pen drive e segurou a chave entre os dedos. O metal parecia frio demais para uma sala climatizada. Ela olhou para o endereço no papel. Um bairro comercial antigo. Nada chamativo. Nada que gritasse relevância.
Era o tipo de lugar que passava despercebido justamente por isso.
Ela apoiou o cotovelo na mesa, passando a mão lentamente pela boca. O mais sensato seria esperar. O investigador tinha pedido isso. O mais prudente seria chamar alguém de confiança. Ou melhor ainda: avisar Rafael, colocar segurança, fazer tudo do jeito certo, do jeito protegido, do jeito que nos últimos meses tinha se tornado rotina.
Mas aquela ideia morreu antes mesmo de amadurecer.
Não porque ela não confiasse nele. Confiava. Talvez mais do que gostaria em alguns dias. Só que aquilo… aquilo tinha chegado até ela de uma forma que não incluía ninguém além dela. E, por algum motivo que não sabia nomear completamente, sentia que abrir aquele caminho com muita gente ao redor estragaria o que ainda estava intacto.
Ela girou a chave na ponta dos dedos mais uma vez e voltou o olhar para a tela apagada do computador.
Olhos observando os seus passos.
A frase ficou.
Não como medo.
Como aviso.
Valentina se recostou na cadeira e respirou fundo, organizando o raciocínio. Se havia gente observando, então ela não podia simplesmente sair do escritório e seguir para o endereço como se nada estivesse acontecendo. Também não podia desaparecer por horas sem levantar suspeita na segurança que Rafael insistia em manter ao redor dela. Precisava fazer aquilo do jeito certo. Sozinha, sim. Mas não de maneira burra.
Pegou o celular e mandou uma mensagem curta para Lurdes.
Entra aqui um instante.
A resposta veio quase imediata. Menos de um minuto depois, a chave girou na porta, e Lurdes apareceu do lado de dentro, franzindo o cenho ao notar que o escritório estava trancado.
— Senhora?
Valentina já tinha guardado o pen drive, a chave e o endereço dentro da bolsa.
— Vou sair por umas duas horas. Se alguém perguntar, estou em uma reunião externa com um possível cliente antigo da família Diniz. Não passa ligação. Não agenda nada nesse meio-tempo. E, se Rafael ligar, diz que estou fora do escritório.
Lurdes piscou, surpresa.
— Certo… mas o Arthur vai com a senhora?
Valentina sustentou o olhar por um segundo.
— Não dessa vez.
— Senhora…
— Lurdes.
Ela falou baixo, mas firme o suficiente para interromper a objeção antes que nascesse por completo.
— Eu preciso fazer isso sem alarde.
A assistente mordeu o canto da boca, ainda desconfiada, mas assentiu.
— Tudo bem. Mas pelo menos me avise quando chegar.
Valentina suavizou um pouco a expressão.
— Aviso.


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