No carro, o silêncio inicial não foi incômodo. Valentina observava a cidade passar pela janela, reparando em coisas que parecia não ver havia semanas: gente saindo de escritórios, crianças na calçada com uniforme escolar, uma mulher discutindo ao telefone com veemência no sinal, um homem vendendo balões no canto da rua.
A vida seguia.
Indiferente.
Isso sempre doía um pouco.
Quando percebeu para onde estavam indo, virou o rosto lentamente para Enzo.
— Shopping?
— Não faz essa cara. Você parece que eu te trouxe pra uma sessão pública de humilhação.
— Eu não quero fazer compras.
— Ótimo. Porque eu não te trouxe pra isso. Não exatamente.
Ele estacionou na área privativa, e o silêncio que a envolveu ao sair do carro foi estranho o bastante para chamar atenção. Não havia movimento. Não havia clientes. Não havia tumulto.
Valentina olhou ao redor.
— Por que isso está vazio?
Enzo fechou a porta do carro e a encarou como se a resposta fosse óbvia.
— Porque eu não sou louco de te trazer aqui com metade do país querendo fotografar sua cara até quando você respira.
Ela piscou.
— Você esvaziou um shopping?
— Tecnicamente, esvaziei uma ala inteira. Não exagera. Ainda tenho algum senso de limite.
— Isso é completamente absurdo.
— Obrigado.
Ela quase sorriu.
Quase.
A parte do shopping para onde ele a levou não era a que ela costumava frequentar. Nada de vitrines de luxo, joalherias ou cafés silenciosos. Era outra coisa. Mais colorida. Mais viva. Mais despretensiosa. Lojas infantis, brinquedos, uma pequena área de jogos, um corredor inteiro com roupas minúsculas e objetos delicados demais para não chamar atenção.
Valentina parou no meio do caminho.
O olhar desceu para uma vitrine com sapatinhos absurdamente pequenos.
O peito apertou de novo.
Mas não da mesma forma de antes.
Enzo percebeu.
Claro que percebeu.
Só não comentou. Caminhou até a vitrine, analisou os modelos com um ar de falsa seriedade e disse:
— Eu, pessoalmente, acho isso aqui uma injustiça. Como uma criatura que ainda nem nasceu já tem sapato mais bonito que o meu?
Valentina soltou um riso curto, desprevenido.
O primeiro de verdade em dias.
Enzo virou o rosto na direção dela com uma satisfação ridícula.
— Ah. Aí está.
— Não se emociona.
— Tarde demais.
Eles entraram em uma das lojas, e a vendedora, já orientada a agir com discrição máxima, limitou-se a sorrir e manter distância. Enzo pegou uma mantinha branca, depois uma verde-clara, depois uma amarela, e analisou tudo com uma seriedade que não combinava em nada com a situação.
— Não sabemos o sexo — lembrou Valentina, passando os dedos sobre o tecido macio de uma roupa minúscula.
— E isso é um problema desde quando? Criança pode nascer, respirar e usar amarelo, eu prometo.
Ela lançou um olhar para ele.
— Você é surpreendentemente opinativo para alguém que nem é pai.
— Sou um homem multifacetado.
Aquela resposta a fez rir de novo.

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