Voltar não era simples. Não era como abrir uma porta e encontrar tudo no lugar, intacto, esperando por ela como se o mundo tivesse pausado por respeito. Nada havia pausado. Nada havia esperado.
Quando Valentina entrou no prédio do escritório, a sensação foi outra.
O ar parecia mais pesado. Os passos ecoavam de um jeito diferente. Os olhares… esses eram os piores.
Alguns curiosos.Alguns respeitosos.
Alguns carregados de um tipo de admiração que a deixava desconfortável.
E outros… Outros cheios de julgamento silencioso.
Ela atravessou o saguão com a postura impecável, o salto firme marcando o chão como sempre fizera. Por fora, nada havia mudado.
Por dentro, ela ainda estava reconstruindo os pedaços.
— Dra. Valentina… — a recepcionista levantou-se rapidamente, surpresa e aliviada ao mesmo tempo. — Que bom que voltou.
Valentina assentiu com um leve aceno.
— Obrigada.
A voz saiu controlada.
Treinada.
Ela seguiu pelo corredor, ignorando os cochichos discretos, os cumprimentos mais tímidos, os olhares que a seguiam como se tentassem decifrar o que havia restado dela depois de tudo.
Sua sala continuava igual. Como se nunca tivesse sido abandonada por dias.
Valentina fechou a porta atrás de si e, por um instante, apenas ficou ali, parada, olhando o espaço que sempre fora seu território de controle absoluto.
Agora… Parecia distante.
Ela caminhou até a mesa, passou os dedos pela superfície lisa e se sentou lentamente. O corpo reconhecia o lugar. A mente… ainda tentava acompanhar.
Foi então que viu um jornal deixado sobre a mesa dobrado.
Valentina franziu levemente a testa e puxou o papel.
O título veio como um golpe seco.
“Montenegro Corp despenca no ranking global após escândalo e sai do top 10 empresarial.”
Ela não reagiu de imediato.
Os olhos apenas correram pelas linhas.
— “…queda histórica…”
— “…perda de credibilidade internacional…”
— “…investidores recuam…”
— “…posição atual: 20º lugar…”
O número ficou preso na mente dela.
Vinte.
A Montenegro, que sempre dominara. Que sempre estivera no topo. Agora… vinte.
Ela continuou lendo.
E então veio a outra parte.
“Enquanto isso, a Fênix Group assume posição de destaque e expande operações globalmente…”
Valentina ficou em silêncio.
O contraste era brutal.Uma empresa caindo.Outra ascendendo.
Como se o mercado tivesse escolhido um novo rei sem hesitação.
Ela largou o jornal devagar.
Os dedos ficaram imóveis sobre a mesa.
O peito apertou.
Porque, pela primeira vez, ela não estava olhando aquilo como advogada.
Estava olhando como alguém que tinha… causado aquilo.
O celular na mesa parecia pesado demais.
Ainda assim, ela o pegou.
Discou.Chamou uma vez.
Duas.
Na terceira, Enzo atendeu.
— Bom dia, doutora Diniz — a voz dele veio leve, quase provocativa.
Valentina não entrou na brincadeira.
— Eu vi a notícia.
Um segundo de silêncio. Curto. Mas perceptível.
— Ah… isso.
Descontraído demais. Calculado demais.
Valentina fechou os olhos por um instante.
— Enzo… o que está acontecendo?
— O que acontece quando um escândalo daquele tamanho explode — respondeu ele, simples. — O mercado reage.
— A empresa caiu para vigésimo lugar.
— Temporário.
— A Fênix está dominando.
— Eles estavam esperando uma brecha.
A resposta veio rápida demais.
Valentina apertou o celular contra o ouvido.
— E a Montenegro?
— Vai se reerguer.
— Como?
Silêncio.
Dessa vez, um pouco mais longo.
— Eu vou dar um jeito — disse ele, por fim, mais baixo.
Valentina soltou um ar pelo nariz.
— Você está sendo atingido por isso.
— Faz parte.
— Não, não faz — ela respondeu, mais firme agora. — Eu causei isso.
— Valentina—
— Não minimiza.
A frase saiu mais dura do que ela pretendia.
Mas era verdade.
E ela não tinha mais força para fingir que não via.
Do outro lado, Enzo suspirou.
— Você já fez o que precisava fazer.
— E destruí tudo ao redor no processo.
— Você fez justiça.
Ela fechou os olhos novamente.
— E agora?
Ele demorou um segundo antes de responder.
— Agora você não se preocupa com isso.
Valentina abriu os olhos.
— Como assim?
— Eu resolvo.
— Enzo—
— Eu resolvo — repetiu ele, firme. — Você já carregou coisa demais. Não vou colocar mais isso nas suas costas.
Aquilo deveria tranquilizá-la.
Mas não tranquilizou.
— Nós falamos depois — disse ela, mais baixa.
— Falamos.
Ela desligou. E ficou ali.
O jornal ainda aberto na mesa. As palavras ainda ecoando.
E, pela primeira vez, uma pergunta começou a crescer dentro dela: o quanto daquilo ainda estava sob controle?
À noite, quando voltou para a casa de Enzo, o silêncio do lugar parecia diferente.
Ela entrou, tirou os sapatos com calma e seguiu pelo corredor, pronta para subir direto para o quarto… Mas parou.
A voz vinha da sala.
— …não podemos sustentar isso por muito tempo — dizia Helena.
Valentina ficou imóvel.
Instinto.
— Eu sei — respondeu Enzo. — Mas pressionar agora só piora.
— O conselho já está dividido.
— Augusto está manipulando isso.
— Ele quer a presidência de volta.
Valentina sentiu o corpo endurecer.
Respirou fundo. E entrou.
Os dois se viraram imediatamente.
O silêncio que caiu foi instantâneo.
— Mas… eu nunca quis isso. Rafael nunca me disse nada.
Enzo deu um meio sorriso.
— Meu primo não era exatamente um homem de conversas abertas.
Ela passou a mão pelo rosto atordoada.
— O que eu posso fazer para me livrar disso?
A pergunta saiu rápida.
Instintiva.
— Eu não quero nada que venha dele. Nunca quis.
Enzo a observou por um segundo.
E então respondeu, com calma.
— Temos duas opções.
Ela ergueu os olhos.
— Quais?
— Você pode assinar um contrato transferindo suas ações para mim. Eu te represento no conselho e resolvo isso.
Ele fez uma pausa.
E então completou:
— Ou…
Silêncio.
Valentina olhou dele para Helena.
— Ou o quê?
Helena respirou fundo.
E falou.
— Ou você se casa com Enzo.
O mundo parou por um segundo inteiro.
— O conselho precisa de estabilidade — continuou Helena, com cuidado. — Se você estiver ao lado dele, como esposa, apoiando a liderança dele… isso segura a estrutura da empresa. Não leva a Montenegro ao topo de novo imediatamente… mas impede a queda.
Valentina ficou em silêncio.
A proposta ficou no ar.
Ela soltou a mão de Helena devagar deu um passo para trás.
— Podemos… falar disso em outro momento.
A voz saiu baixa.
Enzo se levantou na mesma hora.
— Eu disse pra não trazer isso agora.
— Filho—
— Não, mãe.
Ele foi até Valentina, segurou a mão dela com firmeza, mas sem forçar.
— Não se preocupa com isso. Eu vou dar um jeito.
O olhar dele encontrou o dela.
— Vai descansar. O dia já foi intenso demais.
Ela assentiu.
Sem força para discutir.
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu Helena.
— Boa noite, Val — disse Enzo, mais baixo.
Ela virou.
Subiu as escadas.
Cada passo pesado.
Quando chegou no meio do caminho, ouviu.
— Mãe… — a voz de Enzo veio mais baixa, mas clara o suficiente. — Ela já se casou por contrato uma vez. Olha no que deu. A senhora acha mesmo que ela faria isso de novo?
Helena suspirou.
— Eu sei… não pensei direito. Só… ver a empresa do seu avô caindo assim…
O restante se perdeu.
Valentina não ouviu mais.
Ou talvez não quisesse ouvir.
Entrou no quarto. Fechou a porta.
E ficou ali. Em silêncio. A mente girando.

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