A manhã começou antes mesmo de o sol parecer real. Valentina desceu as escadas com passos mais firmes do que nos dias anteriores, mas ainda carregando aquele peso silencioso que parecia ter se instalado dentro dela desde o julgamento. Não era mais o colapso. Não era mais o vazio absoluto.
Era outra coisa.
Quando entrou na sala de refeições, encontrou Enzo já de pé, de costas, com o celular no ouvido. Ao lado dele, um homem alto, postura impecável, expressão séria — Dario.
A semelhança com Moreira não passou despercebida.
Outro braço direito. Outro homem que carregava segredos.
Valentina diminuiu o passo.
E então ouviu.
— …não podemos permitir que ele leve a presidência assim — dizia Dario, baixo, mas firme. — O senhor Montenegro não está para brincadeira. Ele vem hoje com advogados. Vai tentar forçar a votação.
Enzo passou a mão pelo rosto, visivelmente tenso.
— Eu sei.
A resposta saiu carregada de cansaço contido.
— Vou usar minhas ações e as da minha mãe para anular qualquer tentativa. Mas meu tio… — ele soltou um suspiro curto — …meu tio é pior que o Rafael. Se eu deixar ele assumir, a Montenegro não cai… ela acaba.
Valentina sentiu o coração apertar.
Rafael.
Mesmo ausente, ainda presente.
Dario continuou:
— As ações da senhora Valentina poderiam resolver isso, senhor. Se estivessem sob o seu controle, não haveria margem para disputa.
E então Enzo respondeu.
— Deixe ela fora disso.
Valentina prendeu a respiração sem perceber.
— Mas senhor—
— Eu disse para deixar ela fora disso — repetiu ele, agora sem margem para contestação. — Valentina já passou por coisa demais. Tudo que eu quero agora é que ela seja feliz.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Dario o observou por um instante.
— O senhor gosta mesmo dela.
Enzo soltou um leve riso sem humor.
— Sempre gostei.
Fez uma pausa.
E completou, mais baixo:
— Só que antes… ela era inalcançável.
Aquelas palavras ficaram no ar.
E atingiram.
Valentina permaneceu parada por um segundo a mais do que deveria.
Então entrou.
— Bom dia.
Os dois se viraram imediatamente.
Enzo desligou o telefone no mesmo instante.
— Valentina… — ele deu um passo à frente, o semblante suavizando. — Dormiu bem?
— Sim — respondeu ela, controlada. — Bom dia.
Dario se endireitou e fez uma leve inclinação respeitosa.
— Bom dia, senhora.
Valentina assentiu.
— Bom dia, Dario. Como tem passado?
— Bem, senhora. À disposição.
Ela se sentou à mesa.
O café já estava servido.
Enzo puxou uma cadeira e começou a falar de coisas triviais. Perguntou do escritório, comentou sobre o clima, fez uma observação qualquer sobre o trânsito da cidade. Ele evitava o assunto anterior com uma habilidade quase perfeita.
Mas Valentina percebia.
Cada desvio. Cada mudança de tom. Cada silêncio disfarçado.
Dario foi o primeiro a quebrar a leve encenação.
— Senhor, precisamos ir. A reunião começa às dez.
Enzo assentiu. Levantou-se.
Deu a volta na mesa.
Parou ao lado de Valentina.
E, com um gesto natural demais para ser pensado, inclinou-se e beijou a testa dela.
— Te vejo à noite.
A voz saiu baixa.
— Come direito. E não se estressa no escritório.
Valentina ergueu os olhos para ele.
Havia algo diferente ali.
— Você também — respondeu, quase num reflexo.
Ele sorriu de leve.
Depois saiu, Dario o seguiu.
A sala ficou em silêncio.
Valentina terminou o café sem pressa.
Mas a mente… Já não estava ali.
O carro já a aguardava do lado de fora.
Ela entrou. Fechou a porta.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Para o escritório, senhora?
Valentina ficou em silêncio por dois segundos.
Três.
E então respondeu:
— Não.
O homem aguardou.
— Vamos para a Montenegro.
Ele não questionou.
— Sim, senhora.
O trajeto pareceu mais longo.
O coração dela batia mais forte do que deveria. Quando o carro parou diante do prédio da Montenegro Corp, a imponência do lugar ainda estava ali.
Valentina desceu.
O vento leve bagunçou alguns fios de cabelo.
Ela ignorou e entrou.
A recepção estava em movimento, mas havia tensão no ar. Funcionários cochichavam. Olhares iam e vinham.
A reunião já tinha começado.
Ela sabia.
O elevador subiu em silêncio. Cada andar parecia um passo mais fundo dentro de algo que ela ainda não tinha nomeado completamente.
Quando as portas se abriram, a voz de Augusto veio antes mesmo de ela se aproximar da sala.
— Isso é um absurdo! Essa empresa precisa de comando, não de sentimentalismo!
Valentina parou.
A porta estava entreaberta.
O som ecoou.
Valentina não recuou.
— Se não fosse o seu filho ter destruído a minha família… o senhor acha que eu estaria aqui?
A sala congelou.
Ela desviou o olhar dele e falou, calma:
— Dario.
O homem se adiantou imediatamente.
— Senhora?
— Prepare a documentação.
Ele entendeu na hora.
— Sim, senhora.
Enzo deu um passo à frente.
— Valentina, não—
Ela ergueu a mão.
— Eu te devo isso.
O olhar encontrou o dele.
Firme.
Sem espaço para discussão.
O silêncio voltou.
Mas agora… Carregado de decisão.
Os papéis chegaram.
A caneta foi colocada sobre a mesa.
Valentina a pegou.
O metal frio entre os dedos.
O peso… Maior do que parecia.
Por um segundo… Ela hesitou.
Não por dúvida.
Mas pelo que aquilo representava.
Então assinou.
Uma vez. Depois outra.
E, quando terminou, colocou a caneta sobre o papel com precisão.
— Espero que os diretores desta empresa compreendam — disse ela, erguendo o olhar — que uma mentalidade ultrapassada não sustenta impérios.
Os olhos voltaram para Augusto.
— E que liderança não se impõe pelo medo.
Pausa.
Ela empurrou o documento na direção de Enzo.
— De acordo com este registro… você agora é o presidente da Montenegro Corp.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E então… As palmas começaram.
Primeiro tímidas.Depois mais fortes.
A sala reagia. O poder havia mudado.
Valentina se levantou. Não sorriu.
Não comemorou. Apenas observou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário