A decisão de ir até a prisão não nasceu de coragem.
Nasceu de exaustão.
Valentina passou dois dias tentando convencer a si mesma de que não precisava daquilo, de que o silêncio já bastava, de que o tribunal, a sentença e o som das algemas já tinham encerrado tudo o que existia entre ela e Rafael Montenegro. Mas a verdade era outra. Havia coisas demais ainda presas dentro dela, coisas que nem o julgamento, nem a queda pública, nem a distância tinham conseguido arrancar.
Era como se uma parte da história continuasse aberta, apodrecendo em silêncio.
E ela precisava fechar.
Nem que fosse com ódio.
Nem que fosse tarde demais.
Quando o carro parou diante do complexo penitenciário, Valentina permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando através do vidro escurecido para a fachada fria, cinzenta, sem qualquer traço de humanidade. O lugar parecia construído para lembrar a qualquer um que entrasse ali que liberdade era uma coisa frágil, e que certas portas, uma vez fechadas, mudavam para sempre o homem que ficava do outro lado.
O motorista aguardou em silêncio.
Valentina levou a mão ao ventre quase por reflexo, sentindo o tecido do vestido ajustado ao corpo e a curva ainda discreta, mas já real, da gravidez que começava a existir também por fora. Três meses. O tempo tinha avançado mais rápido do que ela percebera, e agora nada dentro dela era apenas sobre ela.
Ela soltou o ar devagar.
— Vamos.
Os procedimentos foram frios, burocráticos, demorados. Documento. Assinatura. Espera. Olhares. Portas abrindo. Portas fechando. O som metálico dos trincos ecoava pelos corredores com uma dureza que chegava a ser ofensiva. Valentina caminhava acompanhada por um agente, os passos controlados, a pasta fina presa contra o corpo, o envelope dentro dela mais pesado do que papel deveria ser.
Convite.
Ultrassom.
Duas coisas pequenas.
Duas coisas capazes de destruir.
Quando finalmente chegou à sala de visita reservada, o agente indicou a cadeira de um dos lados da divisória de vidro grosso. Havia o telefone preso ao suporte, a luz branca demais no teto, a assepsia impessoal de lugares onde ninguém quer ficar mais do que o necessário. Valentina sentou-se devagar, ajustando a respiração, tentando conter o tumulto que começava a crescer por dentro.
Ela tinha ensaiado palavras.
Algumas.
Mas, agora, nenhuma parecia suficiente.
A porta do outro lado se abriu.
Rafael entrou.
O tempo não parou, mas mudou de densidade.
Ele vinha escoltado, com passos firmes, a postura ainda reta demais para alguém vestindo o uniforme neutro da prisão. O tecido áspero e sem forma não apagava quem ele era. Tampouco a luz cruel daquele lugar conseguia arrancar dele a presença que sempre preenchera os espaços antes mesmo que alguém tivesse coragem de nomeá-la.
Mas havia mudança, sim.
Não na estrutura do rosto. Não no corpo. Não na maneira como andava.
A mudança estava no que faltava.
Faltava o poder visível.
Faltava o mundo obedecendo à simples inclinação da cabeça.
Faltava o império ao redor.
Ainda assim… ele não parecia quebrado.
E isso a irritou imediatamente.
Rafael sentou-se do outro lado sem pressa. Os olhos subiram até o rosto dela e ali ficaram. Não havia surpresa. Não havia ironia. Não havia satisfação amarga. Havia apenas um silêncio profundo, atento, perigoso de tão contido.
Valentina pegou o telefone.
Ele fez o mesmo.
Por um segundo, nenhum dos dois falou.
A respiração dela parecia alta demais.
O olhar dele, insuportavelmente estável.
Foi isso que a fez começar.
— Eu quase não vim.
A voz saiu mais baixa do que ela queria.
Ela endureceu.
— Quase achei que não valia a pena.
Rafael continuou em silêncio.
Apenas ouvindo.
Como sempre.
Como no julgamento.
Como em tudo.
E aquilo voltou a irritá-la.
— Mas eu precisava vir — continuou, apertando o telefone com força. — Precisava encerrar isso de uma vez. Precisava falar olhando na sua cara, porque você me deve ao menos isso.
Nada.
Nenhuma palavra.

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