Ela tirou a segunda folha do envelope.
O exame.
A imagem granulada.
Pequena.
Ridiculamente poderosa.
Por um segundo, sua própria respiração mudou.
Então colocou o ultrassom ao lado do convite.
— Mas eu achei que você deveria saber.
Rafael olhou.
E dessa vez, sim, algo nele mudou.
Foi pequeno. Profundo. Involuntário.
Os olhos desceram para a imagem com uma atenção que ele não dera a nada até então.
Valentina sentiu o peito apertar de novo.
Mas já tinha ido longe demais para voltar.
— Eu estou grávida.
A frase pairou no ar entre os dois, brutal e íntima ao mesmo tempo.
Rafael continuou olhando o exame.
Não falou.
Não ergueu os olhos imediatamente.
Não respirou mais fundo de forma visível.
Mas o silêncio agora era outro.
Mais denso.
Mais perigoso.
Valentina continuou, porque parar seria fraqueza.
— Três meses.
A voz saiu mais baixa.
— Você provavelmente vai sair daqui quando essa criança já for quase um adulto. Mais de quinze anos. Talvez nem isso, se tiver algum recurso, alguma redução, algum milagre jurídico que eu sinceramente não me importo em acompanhar.
Ela engoliu em seco.
— Então não importa. No final das contas, vai ser essa criança que vai decidir se quer ou não um pai ex-presidiário na vida. O assassino dos avós.
A crueldade da própria frase a feriu no instante em que saiu.
Mas ela manteve a postura.
— E, pra ser honesta, talvez nem precise. Porque o Enzo já faz esse papel sem pedir nada em troca.
Foi a primeira vez que a voz dela ameaçou quebrar de verdade.
Talvez pelo bebê. Talvez pelo que aquela comparação significava. Talvez porque, no fundo, ainda doesse demais saber que estava dizendo tudo aquilo para o homem que um dia amou como se ele fosse inevitável.
Rafael ergueu os olhos então.
Devagar.
Até encontrar os dela de novo.
E foi pior.
Porque não havia ódio ali. Não havia defesa. Não havia desprezo.
Havia alguma coisa que ela não queria decifrar.
Alguma coisa que parecia fundo demais para aquele vidro.
— Não me olha assim — sussurrou, sentindo a raiva voltar só para não cair. — Você perdeu esse direito.
Ele não desviou.
E não falou.
Valentina soltou o telefone por um segundo, passou a mão pelo rosto e o pegou de novo.
— Eu vim aqui porque precisava encerrar. Porque eu precisava dizer tudo isso olhando pra você e não pra lembrança do que você foi na minha cabeça. Porque eu precisava… — a voz falhou, e ela fechou os olhos com força antes de continuar — …porque eu precisava que você ouvisse da minha boca que eu estou indo embora de vez.
Ela respirou fundo.
— Eu vou me casar. Vou reconstruir a minha vida. Vou criar esse filho longe de tudo que tenha o seu nome. E você… você vai ficar aqui.
O silêncio dele começava a parecer um espelho cruel, porque quanto mais ele se recusava a reagir, mais ela se sentia sozinha em tudo aquilo.
— Fala alguma coisa! — explodiu de repente, a voz finalmente subindo. — Qualquer merda, Rafael! Me chama de covarde, de injusta, de cega! Diz que eu estou errada! Diz que isso tudo é uma armação! Me odeia por estar aqui! Faz qualquer coisa além de me olhar assim!
Nada.
Só silêncio.
O tipo de silêncio que enlouquecia.
Valentina sentiu as lágrimas chegarem, e aquilo a enfureceu mais ainda.

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