Talvez porque o dia já estivesse cheio demais de significados para abrir espaço para mais uma inquietação.
Tomou mais um gole de chá, olhou outra vez para o vestido e tentou concentrar-se nisso. Na cerimônia. No que viria. No próximo passo. No fato de que, mesmo sem grande romantismo, aquela decisão tinha sido pensada. Escolhida. Não imposta.
Ela repetiu isso para si mesma em silêncio.
Escolhida.
Maria começava a recolher parte da bandeja quando o celular de Valentina vibrou sobre a mesa de cabeceira.
Número desconhecido.
O coração dela reagiu antes da lógica.
Bianca.
Só podia ser Bianca.
Nos últimos dias, a ausência da amiga tinha voltado a inquietá-la com mais força do que antes. A ligação instável. O aviso cortado. A sabotagem. O medo no fundo da voz. Tudo aquilo continuava sem resolução, como se outra história perigosa estivesse correndo paralela à sua, invisível, só esperando a hora errada de entrar em cena.
Valentina pegou o telefone rápido demais.
— Alô?
Houve um breve silêncio do outro lado, seguido pelo som seco de uma respiração contida.
— Senhora Montenegro.
Valentina franziu a testa imediatamente.
A voz não era de Bianca.
Era masculina.
Mais velha.
Cansada.
E, ainda assim, familiar de um jeito que fez um frio súbito atravessar sua coluna.
— Quem fala?
A resposta veio após um segundo curto demais para ser conforto.
— Sou eu. João Carlos Andrade.
O nome caiu dentro dela como um objeto pesado atirado num lago raso.
Tudo parou.
O chá ainda quente entre os dedos.
Maria se movendo ao fundo.
A casa se preparando para o casamento.
O vestido.
A manhã.
Tudo pareceu se afastar meio passo.
— Senhor Andrade… — disse ela, mais fria do que se sentia. — Eu não preciso mais dos seus serviços. O assassino dos meus pais já foi julgado pela justiça.
Do outro lado, o silêncio demorou um pouco mais.
Não um silêncio de dúvida.
Um silêncio de quem já esperava ouvir exatamente aquilo.
— Senhora… — disse ele por fim, e a voz vinha carregada de algo mais grave do que antes. — Eu estava no Canadá. Ainda faltava uma peça de todo esse jogo. E a senhora precisa saber: quem me contratou desde o início foi o senhor Rafael Montenegro.
Valentina ficou imóvel.
Completamente.
Nem a respiração veio.
Por um segundo, ela não entendeu.
Ou talvez tenha entendido perfeitamente e recusado a compreensão no mesmo instante.
— O quê?
— Eu disse que havia gente poderosa por trás da morte dos seus pais — continuou Andrade. — Mas eu nunca disse que era ele.
A mão dela apertou o celular com força.
— Senhor Andrade, o que exatamente o senhor está tentando fazer?
— Corrigir o que ficou incompleto.
A resposta veio sem hesitar.
— Eu vou enviar um anexo. E meu endereço. A senhora precisa me encontrar com urgência.
A ligação caiu.
Simples assim.
Sem despedida.
Sem espaço para mais perguntas.
O celular apitou imediatamente na mão dela.
Uma mensagem.
Depois outra.
Depois mais uma.
Maria percebeu a mudança no rosto dela antes mesmo que Valentina percebesse a própria.
— Senhora?

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