Valentina não pensou duas vezes depois que Maria fechou a porta.
Não havia mais espaço para hesitação, nem para a lógica confortável que, até aquela manhã, vinha sustentando tudo de pé com a aparência de escolha racional. O celular continuava em sua mão, a tela ainda acesa com a foto de Enzo ao lado do perito que enterrara a morte de seus pais sob a expressão burocrática de “falha mecânica”, e aquilo sozinho já era suficiente para rasgar o chão sob seus pés.
Mas não bastava.
Ainda não.
Porque a foto era uma faca, sim, mas era uma faca sem cabo. Doía. Fería. Desorientava. E, naquele estado, a mente dela precisava de algo pior e mais seguro ao mesmo tempo.
Precisava de explicação.
Virou-se para Maria, os olhos já sem aquela névoa sonâmbula do despertar. Agora havia outra coisa neles. Tensão. Decisão. Medo vestindo pressa.
— Não saia daqui. Vamos a um lugar antes.
Maria franziu a testa no mesmo instante.
— Senhora… daqui a pouco o pessoal do dia de noiva chega.
Valentina já atravessava o quarto em direção ao banheiro.
— Eu preciso saber de uma coisa antes — respondeu, sem olhar para trás. — E você vem comigo.
A troca de roupa foi rápida, quase violenta na falta de delicadeza. Arrancou o robe, vestiu a primeira combinação sóbria que encontrou, prendeu os cabelos de qualquer jeito e voltou para o quarto com o coração batendo num ritmo alto demais para ser ignorado. O vestido de noiva, pendurado perto da janela, permaneceu ali, parado, branco demais, silencioso demais. Pela primeira vez naquela manhã, ele não pareceu promessa. Pareceu ameaça.
Ao sair do quarto, encontrou Helena no hall principal, cercada por arranjos florais, funcionários e aquela energia organizada de quem tenta controlar cada centímetro da realidade com beleza. A mulher ergueu os olhos ao vê-la e sorriu imediatamente.
— Bom dia, querida.
O sorriso morreu só um pouco ao reparar na roupa.
— Você vai sair? O pessoal do casamento chega em breve.
Valentina desceu o restante da escada mantendo o rosto o mais neutro que conseguia.
— Surgiu uma coisa no escritório. Não vou demorar.
Helena hesitou. Não muito. Mas o suficiente para ser notado por alguém que já estava em estado de alerta.
— No escritório? Hoje?
Valentina não deixou que nada transparecesse.
— É rápido.
Passou por ela.
Maria logo atrás.
O motorista já esperava do lado de fora e abriu a porta do carro de imediato.
— Senhora, eu a levo.
Valentina o olhou com uma firmeza tão cortante que o homem parou antes de completar a frase.
— Deixa que eu dirijo.
Houve um segundo de resistência muda.
Depois ele recuou.
— Sim, senhora.
Maria entrou no banco do passageiro, ainda nervosa demais para disfarçar. Valentina assumiu o volante e deu partida. Só quando já estavam na rua foi que a governanta ousou perguntar.
— Senhora… pra onde estamos indo?
Valentina manteve os olhos na avenida.
— Descobrir a verdade.
Maria não perguntou de novo de imediato, mas a inquietação dela enchia o carro como um terceiro ruído além do motor e da cidade. Valentina dirigia com firmeza, embora as mãos no volante estivessem tensas demais, os dedos rígidos, o maxilar preso. Em um semáforo mais longo, levou a mão livre ao ventre sem pensar, num gesto curto, instintivo, e olhou o próprio reflexo distorcido no retrovisor.
A pergunta veio antes que pudesse impedi-la.
— Será que eu fui injusta com seu pai?
Foi dito baixo demais para ser comentário.
Alto demais para ser só pensamento.
Maria ouviu, mas permaneceu em silêncio.
O prédio ao qual chegaram não era luxuoso, nem decadente. Tinha aquele tipo de fachada neutra que abriga gente que quer passar despercebida sem parecer miserável. Havia porteiro. Câmeras. Portão eletrônico. Discrição. O tipo de lugar que alguém acostumado a viver entre perigo e prudência escolheria para encontros que precisavam existir sem virar rastro.
Valentina estacionou, desceu e foi até a entrada com Maria ao lado. Apertou o interfone. Uma voz chiada perguntou o andar, e ela repetiu o número enviado por Andrade. O portão abriu.
Mas, antes que pudessem seguir, o porteiro saiu da guarita e levantou a mão.
— Somente a sua entrada foi autorizada, senhora. Sua amiga precisa ficar aqui.

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