Valentina ficou imóvel. Não respondeu de imediato, talvez porque a mente ainda recusasse dar forma à frase que tinha acabado de ouvir.
— Como assim?
Andrade puxou a pasta de volta, abriu numa página marcada e virou-a na direção dela.
— Nada disso é organicamente real. Mas foi fabricado com um nível de precisão absurdo. Precisamente por isso a senhora conseguiu levar o senhor Rafael à prisão. A estrutura documental era tão sólida que qualquer promotor, qualquer juiz e qualquer advogada brilhante… — ele a olhou com intenção calculada — …faria exatamente o que a senhora fez.
Valentina passou os olhos pelos trechos.
As marcas.
Os carimbos.
As assinaturas.
Tudo parecia o mesmo inferno de antes.
— Isso é impossível.
— Não. Só é caro. E antigo.
Ele puxou outra folha.
— O senhor Rafael já sabia da existência desse material, senhora. Foi por isso que ele procurou Jorge e Alba Diniz. Porque o seu primo queria vê-lo preso. E, se essa ofensiva tivesse acontecido um ano e meio antes, ele teria caído da mesma forma.
O nome dos pais dela dentro daquela explicação soou obsceno.
— Você está me dizendo que meus pais estavam tentando ajudá-lo?
— Estou dizendo que seus pais foram contratados para desmontar uma fraude jurídica complexa contra ele.
Valentina soltou o ar como se tivesse levado um soco.
— Não.
A negação veio seca.
Instintiva.
Andrade não se abalou.
— Sua recusa é emocional. Os documentos, não.
— Como eu posso confiar no senhor? — rebateu ela, erguendo a voz pela primeira vez. — O senhor é mais uma peça nesse jogo do Rafael. Mais um homem pago para me conduzir para onde ele quer.
O rosto de Andrade endureceu.
Não dramaticamente. Com dignidade ferida.
— Senhora, eu estou nisso há cinquenta anos. Perdi gente demais, dinheiro demais e pele demais para continuar vivendo de truques baratos. Se eu quisesse enganá-la, teria permanecido fora do país. O mais seguro para mim era nunca mais olhar para esse caso.
A frase ficou entre os dois.
Ela respirou mal.
Mas não desviou.
— Então por que me procurou?
Andrade pegou uma segunda pasta.
Mais pesada.
Mais grossa.
E a empurrou até ela.
— Por causa disso.
Valentina abriu.
As primeiras imagens não fizeram sentido imediato. Corredores. Estacionamento. Veículos. Um galpão que ela reconheceu depois de dois segundos tarde demais. Em seguida, outra sequência. Câmeras. Horários. Rostos ampliados.
Então veio o primeiro golpe real.
Clara.
Valentina travou.
Passou para a próxima foto e lá estava de novo: Clara em um canto de imagem, Clara de boné, Clara em conversa tensa com alguém fora do enquadramento, Clara observando de longe.
— O que é isso?
Andrade apoiou os antebraços na mesa.
— O material do primeiro sequestro.
Ela ergueu os olhos de uma vez.
— O quê?
— Não foi fácil de conseguir. Nem barato. Mas foi o que me fez voltar atrás e entender que o que parecia disperso era, na verdade, coordenado.
Valentina desceu os olhos para as imagens outra vez, sentindo o estômago embrulhar.
— Clara? — sussurrou. — Clara mandou me sequestrar?
Andrade inclinou a cabeça.
— Tenho duas respostas para essa pergunta. A primeira é simples: a senhora Clara tinha uma obsessão doentia pelo senhor Rafael Montenegro e um ódio crescente da senhora. A segunda é mais útil: ela se aproveitou da brecha aberta por Vittória, que jamais gostou de você, e operou dentro dessa tolerância.
Valentina continuava olhando as fotos, mas já não as lia — elas a atravessavam.
Numa delas, Clara aparecia chorando num corredor. Noutra, entrando discretamente em um quarto. Em outra ainda, deitando-se na cama de Rafael depois que ele saía, num gesto íntimo e absurdo, intrusivo demais para não causar náusea.
Valentina levou a mão à boca.
— Ela é doente.
— Era — corrigiu Andrade.
A palavra a fez erguer o rosto.
— Como assim, era?
Ele puxou a última fotografia da pasta e a colocou por cima das outras.
Valentina olhou.
O ar sumiu.
Clara.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário