A casa continuava cheia demais para uma noite que deveria ter terminado em festa.
Mesmo com o cancelamento do casamento, a mansão ainda respirava exagero. Havia empregados recolhendo arranjos florais, garçons encerrando bandejas, fornecedores desmontando estruturas no jardim, vozes dispersas pelos corredores, passos indo e vindo como se o cenário inteiro ainda se recusasse a aceitar que a celebração tinha morrido antes de nascer. Para qualquer pessoa olhando de fora, aquilo parecia apenas o rescaldo de um evento frustrado. Para Valentina, porém, cada som parecia cobertura. Cada distração, uma fresta. Cada rosto ocupado com outra coisa, uma oportunidade.
Ela aproveitou exatamente isso.
Saiu do quarto sem pressa, já trocada, o vestido guardado, a expressão recomposta, o rosto limpo de qualquer traço da satisfação amarga que sentira ao vê-lo cancelado. Desceu o corredor com a leveza exata de quem não queria chamar atenção e cruzou com duas funcionárias carregando caixas de taças. Sorriu para uma delas, perguntou algo banal sobre o jantar dos convidados, ouviu uma resposta qualquer e seguiu. Nenhuma suspeita. Nenhuma pausa errada. Nenhum excesso.
O segredo, ela sabia, não era correr.
Era parecer que não tinha nada a esconder.
Ao passar pelo hall principal, viu Helena ao longe, ainda cercada por restos da organização da festa e por uma expressão cuidadosamente triste, quase digna, daquele tipo de mulher que faz do desastre um palco para a própria elegância. Valentina não diminuiu o passo. Tampouco foi até ela. Não agora. Não quando cada minuto podia ser a diferença entre encontrar alguma coisa… ou voltar para o quarto de mãos vazias e a sensação de ter perdido a única chance real.
O escritório de Enzo ficava na ala lateral da casa, um pouco afastado dos quartos e do movimento central. Era um espaço que sempre pareceu mais empresarial do que pessoal, mesmo dentro da mansão. O tipo de ambiente pensado para manter controle, negociar poder, esconder o homem atrás do herdeiro bem-educado. Ela já tinha entrado ali antes, poucas vezes, sempre acompanhada, sempre em circunstâncias inocentes, sempre sem motivo para reparar no que agora importava.
Dessa vez, entrou como quem invade um território inimigo.
O corredor até lá estava mais silencioso que o restante da casa. Apenas o ruído distante de vozes vindo do jardim alcançava aquela parte, amortecido pelas paredes grossas e pelo carpete que absorvia os passos. Valentina parou diante da porta por um segundo curto. Não para hesitar. Para ouvir.
Nada.
Girou a maçaneta.
Destrancada.
Entrou.
Fechou a porta atrás de si com o máximo de cuidado e ficou imóvel por alguns segundos, deixando os olhos se acostumarem à penumbra parcial do ambiente. As cortinas estavam semiabertas, e a luz da noite misturada ao reflexo amarelado do jardim iluminado desenhava o escritório em faixas oblíquas. A mesa ampla de madeira escura ocupava o centro. Havia uma estante com livros jurídicos, econômicos e relatórios encadernados. Um bar discreto no canto. Poltronas de couro. Um tapete pesado demais para ser apenas decoração. Objetos mínimos, tudo limpo, funcional, masculino, organizado com precisão quase obsessiva.
Nada fora do lugar.
Claro que não.
Valentina respirou fundo e caminhou até a mesa. Não começou pelas gavetas como alguém que procura qualquer coisa. Começou pelos pontos óbvios que um homem inteligente usaria justamente para distrair intrusos. A superfície da mesa tinha poucos itens: um porta-canetas, um organizador de couro, duas pastas fechadas, uma agenda, um tablet desligado. Ela abriu a agenda primeiro. Compromissos, horários, nomes, siglas, nada que se explicasse sozinho. Folheou rápido. Nada. Passou para as gavetas laterais. Contratos comuns, documentos corporativos, cartões de visita, recibos, anotações de reunião, coisas demais para parecerem irrelevantes, mas irrelevantes o suficiente para não serem o que ela precisava.
O coração batia mais rápido.
Não de medo ainda.
De urgência.
Ela se abaixou para abrir o armário lateral embutido na mesa e encontrou caixas de arquivo, envelopes timbrados, documentos financeiros da empresa, cópias de atas, relatórios de desempenho e uma quantidade irritante de papel que parecia existir exatamente para cansar qualquer um antes de alcançar algo real. Valentina apertou os lábios, fechou o armário e se ergueu devagar. O escritório era grande demais para estar tão vazio de vida. E, no entanto, não parecia vazio. Parecia observado. Como se o próprio ambiente tivesse sido treinado para esconder em silêncio.
Ela foi até a estante.
Passou os dedos pelos livros.
Alinhados por tamanho, tema e cor, sem desvio. Pegou dois ao acaso. Nada entre eles. Tocou a madeira do fundo, procurando irregularidade, clique, folga, algum mecanismo de filme ruim que a realidade raramente oferece, mas que o desespero sempre pede. Nada. Agachou-se diante do móvel inferior, abriu portas discretas, encontrou mais arquivos. Fechou. Caminhou até a parede do bar, tocou o tampo, olhou as garrafas, analisou a moldura do quadro acima. Nada.
O telefone no bolso vibrou.
Valentina congelou.
Puxou-o rápido demais e quase o deixou cair. Era Maria.

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