A noite envolvia o estacionamento em um silêncio quase absoluto.
As luzes amareladas projetavam sombras longas no chão de concreto, criando aquele tipo de cenário que parecia existir fora do tempo — neutro, esquecido, perfeito para encontros que não deveriam acontecer.
Valentina estava dentro do carro.
Imóvel.
As mãos apoiadas no volante, o olhar fixo no para-brisa, enquanto o mundo lá fora permanecia distante. Ela não mexia no celular. Não olhava o relógio. Não demonstrava ansiedade.
Mas pensava.
Cada detalhe. Cada risco. Cada possibilidade de erro.
E então… toc, toc.
Duas batidas leves no vidro.
Valentina não reagiu imediatamente. Virou o rosto devagar. Analisou o homem do lado de fora.
Alto. Postura relaxada demais para alguém comum. Olhar direto. Sem medo. Sem pressa.
Ela abaixou o vidro apenas o suficiente.
— Senhora… — a voz veio baixa, firme — me chamo Jack.
Silêncio.
Um segundo. Dois.
Valentina avaliou.
E então destrancou a porta.
— Entra.
Ele entrou sem fazer perguntas.
Fechou a porta.
O cheiro leve de chuva e noite veio junto com ele.
— Você sabe o que fazer? — perguntou ela, sem rodeios.
— O delegado Salomão já adiantou tudo.
Resposta direta.
Sem emoção. Perfeito.
Valentina pegou o celular e abriu a planta da mansão.
Girou a tela na direção dele.
— Aqui.
O dedo dela deslizou até o ponto exato.
— Escritório. Fica na ala lateral.
Ele observou. Memorizando.
— Embaixo da mesa.
Uma pausa.
— Tem um cofre.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Eu quero tudo que estiver lá dentro.
O silêncio pesou por um segundo.
— Sem deixar nada.
Jack apenas assentiu.
— Entendido.
Valentina abriu uma pasta que estava no banco traseiro e a colocou no colo dele.
— No lugar… você deixa isso.
Ele abriu.
Papéis em branco. Muitos. Organizados.
— Substituição — murmurou ele.
Ela não respondeu. Não precisava.
— Ok, senhora.
Valentina ligou o carro.
— Quando eu entrar… você espera.
— Quanto tempo?
— Até a casa se estabilizar.
Ela virou o volante.
— Eu aviso quando for o momento.
Ele apenas encostou a cabeça no banco.
Silencioso.
Como se já estivesse dentro do trabalho.
A mansão Montenegro surgiu imponente diante deles.
Iluminada. Impecável. Mentirosa.
Valentina estacionou com naturalidade.
Desceu.
Sem olhar para trás.
Entrou.
E, no instante em que cruzou a porta… A máscara voltou.
— Senhora — Maria apareceu rapidamente.
— O jantar está pronto?
— Em vinte minutos.
Valentina sorriu.
Doce. Perfeita.
— Avise a senhora Helena e o senhor Enzo.
Maria assentiu.
— Sim, senhora.
— Vou tomar banho.
Subiu as escadas com calma. Cada passo calculado. Cada gesto controlado.
Dentro do quarto, o silêncio voltou a abraçá-la.
Valentina entrou no banheiro.
Fechou a porta.
E, por alguns segundos… Apenas ficou ali.
Respirando. Sentindo o próprio coração batendo forte.
Ela apoiou as mãos na pia e ergueu o olhar para o espelho.
— Sem erros… — murmurou.
E então começou.
A água caiu. Fria no início. Depois quente.
Ela deixou escorrer pelos ombros, levando com ela qualquer resquício de hesitação. Quando saiu, já era outra vez a mulher que todos conheciam.
Ou acreditavam conhecer.
No estacionamento… Jack abriu os olhos.
O tempo tinha passado. O suficiente.
Ele saiu do carro. Sem pressa. Sem ruído. Usando as sombras como aliado, ele já tinha entrado na rede de toda a casa, sabia com antecedência onde cada segurança estava, sabia cada canto daquele lugar, como se fosse sua própria casa.
O jantar foi servido. A mesa estava impecável.
Velas acesas. Taças alinhadas. Sorrisos forçados.
Helena foi a primeira a falar.
— Ainda é uma pena termos que adiar tudo.
Valentina inclinou levemente a cabeça.
— Concordo.
Enzo parecia mais cansado.
Os ombros tensos. O olhar menos controlado.
— Não tivemos escolha — disse ele, passando a mão pelo rosto. — A empresa está… em uma situação complicada.
Valentina pegou a taça. Girou o líquido lentamente.
— Complicada… ou crítica?
Ele a olhou.
Por um segundo. E então soltou o ar.
— Crítica.
Helena apertou os lábios.
— Parte dos nossos bens está bloqueada.
Valentina ergueu os olhos.
Como se não soubesse.
— Bloqueada?

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