Valentina permaneceu mais alguns segundos ao lado de Enzo e Helena depois do fim da apresentação, sustentando no rosto a máscara exata que a situação exigia. O salão continuava vibrando em torno da Fênix, como se o mundo inteiro tivesse mudado de eixo diante de todos e só ela soubesse o quanto aquilo era maior do que um lançamento global. Empresários antes colados em torno do sobrenome Montenegro agora orbitavam Rafael com a rapidez oportunista de quem reconhece o novo centro de poder antes mesmo da queda anterior terminar de fazer barulho no chão.
Ela precisava sair dali.
Não porque fosse fraca.
Mas porque seu corpo já começava a cobrar o preço de tudo que sua mente vinha sustentando à força.
O estômago revirava. O bebê parecia inquieto. O peito estava apertado demais. E, no meio daquela luz dourada, daqueles copos altos e daqueles sorrisos caros, Valentina sentiu que precisava de um minuto sozinha antes que o próprio corpo a traísse.
Virou-se para Enzo com cuidado, como quem não queria chamar atenção.
— Eu vou ao banheiro.
Enzo inclinou levemente a cabeça, observando o rosto dela com aquela atenção controlada que, antes, ela confundiria com cuidado.
— Você está bem?
Valentina deixou um sorriso pequeno nascer, só o suficiente.
— Estou. Só o bebê precisando de um tempo.
Helena, ao lado, suspirou com delicadeza ensaiada.
— Vá, querida. Respira um pouco.
Valentina assentiu e se afastou sem pressa. Não correu. Não olhou para trás. Apenas atravessou o salão, passando por convidados, garçons e painéis de luz, até alcançar o corredor lateral onde ficavam os sanitários reservados do evento.
Ali, longe do palco e dos olhares, o som da festa chegou abafado, como se pertencesse a outra realidade.
Ela entrou no banheiro feminino e fechou a porta atrás de si.
O silêncio do ambiente foi imediato.
Espelhos altos. Mármore claro. Luz branca demais. O cheiro sutil de flores caras tentando mascarar limpeza recente. Nenhuma outra mulher ali. Nenhuma voz. Nenhuma testemunha. Apenas ela, o reflexo e a turbulência correndo por baixo da pele como uma correnteza escondida.
Valentina foi até a pia e apoiou as duas mãos na borda.
Respirou.
Uma vez.
Depois outra.
Os olhos desceram até a própria barriga, discreta sob o tecido, e o coração dela amoleceu por um segundo num lugar que nem a guerra, nem a culpa, nem a saudade tinham conseguido alcançar completamente.
— Calma, amor… — murmurou, levando a mão até o ventre. — Não faça a mamãe passar mal agora.
A voz saiu mais baixa, mais íntima, mais verdadeira do que qualquer outra que usara naquela noite.
— A gente precisa ser forte. Por nós dois.
Ela engoliu em seco e fechou os olhos.
— E pelo papai também.
A palavra doeu e acalmou ao mesmo tempo.
— Se a gente der brecha para o inimigo… ele mata o seu pai. E isso a mamãe não vai deixar acontecer.
Ela soltou o ar devagar, abaixou a cabeça e abriu a torneira, deixando a água correr sobre os dedos enquanto tentava fazer o coração voltar para dentro do peito de forma menos violenta.
Foi então que sentiu.
Não ouviu primeiro.
Sentiu.
Como se o ar do banheiro tivesse mudado de densidade. Como se o espaço inteiro tivesse reconhecido uma presença antes mesmo que a razão conseguisse nomeá-la. O corpo dela soube. O perfume alcançou o ambiente com aquela nota limpa, escura e inconfundível que a memória não tinha esquecido nem nos dias em que o odiou.
Valentina não se virou.
Endireitou lentamente a postura, os olhos ainda presos ao espelho, onde a porta ao fundo não aparecia inteira, apenas parte do espaço atrás dela.
Falou sem olhar.
— Você é um idiota, sabia?
Silêncio.

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